[Conto] A Imersão Definitiva

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Tudo começou por causa dos malditos óculos.

De uma hora para outra, todo mundo estava usando aquela porcaria, tirando a ficha de cada desconhecido que passava ao lado na rua, almoçando com ele na cara sem prestar atenção no conhecido bem à frente, dirigindo ao mesmo tempo em que trocava mensagens, imerso no mundo virtual exibido, literalmente, diante dos olhos e deixando a realidade, a vida de verdade, escorrer entre os dedos. Ok, as pessoas já faziam isso antes com os aparelhos celulares, os óculos só agravaram um pouco as coisas. Na verdade, acho que desde o começo peguei birra deles, provavelmente pelo aspecto robotizado que dava aos proprietários, mas, pensando bem, seria injusto julgá-los como único e exclusivo estopim de tudo o que veio depois. Talvez a maior culpada mesmo tenha sido a rede social, onde todos eram amigos, felizes, só apareciam sorrindo nas fotos, só tinham bons momentos e histórias de sucesso para contar. A expressão máxima do mundo de faz de conta, onde cada um interpretava um personagem perfeito de si mesmo, mostrando só a parte boa e jogando para debaixo do tapete as tristezas indissociáveis da condição humana. Refletindo melhor, é inegável que o Mark teve um pouco de sangue nas mãos, mas também seria injusto classificá-lo como grande vilão e seu álbum de rostos como a origem de todo o mal. Já havia outro parecido antes, salas de bate-papo, gente se escondendo atrás de apelidos fantasiosos, videogames prometendo uma segunda vida, realidade virtual e um monte de outras coisas que a humanidade nunca precisou, mas vivia querendo mais.

Como começou afinal? Talvez com a internet? Sem ela não existiria nenhum desses sites e consequentemente não teriam inventado os óculos. Mas inventariam telefones, videogames. Ou algo parecido. Foi antes disso, então? A invenção do computador, a descoberta da eletricidade? Na verdade, para qualquer coisa que nos propormos a achar a causa origem, em meio ao turbilhão de eventos ocorrendo em sequência caótica, irremediavelmente chegaremos até o Big Bang – porque se o universo não tivesse sido criado, nada disso teria acontecido.

Apenas distrações. Minha mente conversando consigo mesma, tentando ocultar o óbvio ululante. Eu sei muito bem quem foi o maior vilão, quem deu o aval para que toda essa insanidade coletiva pudesse começar a ser materializada. Sei bem qual foi o início de todo esse cenário desolador em que a raça humana se encontra agora – uma feira de ciências. Tudo começou por causa de uma droga de feira de ciências. Eu estava lá, trabalhando para uma grande empresa desenvolvedora de softwares e aparelhos eletrônicos. Como os “olheiros” que assistem aos jogos de várzea procurando por craques, minha tarefa era buscar novidades e potenciais mentes brilhantes, em meio à quase infinidade de lixo inútil apresentada por empresas de fundo de quintal e garotos metidos a gênio no evento anual de ciências e tecnologia. Alguns trabalhos eram simplesmente primários, outros eram projetos completamente utópicos esperando por algum maluco para bancá-los: propulsores de anti-matéria, sondas mineradoras de meteoritos, sensores mentais. Mas a maioria era apenas mais do mesmo: novos sites de relacionamento, tablets, gadgets, jogos interativos. Estava quase para ir embora, quando vi um cartaz: “Hoje, 18:30 – Apresentação do Projeto ‘A Imersão Definitiva’ com o professor Laurence Moss”.

Aquele nome não me era estranho e, além disso, o slogan “Imersão Definitiva” inexplicavelmente me chamou a atenção. Resolvi ficar para ver a apresentação e, enquanto esperava, pesquisei sobre o Sr. Laurence. PhD em neurologia e ciência da computação, especializações em “N” áreas do conhecimento, mestre condecorado em diversas universidades top de linha. O cara não era fraco. Vendo as notícias relacionadas, me lembrei de onde o nome me soou familiar. Tempos atrás ele havia largado tudo para tentar entrar no ramo de videogames. Montou uma empresa com a proposta de criar um console revolucionário, mas, na última hora, o sócio achou que a ideia era louca demais e resolveu pular fora do barco. O projeto desandou, ninguém quis se arriscar e o professor Laurence sumiu. Por um instante passou pela minha cabeça que iria esperar ainda quase uma hora sentado ali naquela arquibancada de madeira para ver alguém ligar um monte de fios na cabeça e fazer uma bolinha se mover na tela. Quase desisti, mas acabei ficando. E fui surpreendido, positivamente, junto com a meia dúzia de gatos pingados que aguardaram comigo. Surpreendido pela eloquência do sr. Laurence Moss:

— Boa tarde. Sou o professor Laurence e antes de apresentar meu projeto, preciso perguntar algo a vocês: o que é a vida? Sim, a vida. Essa que estamos vivendo agora, o que ela é? O auge do desenvolvimento da natureza? O simples produto de eventos totalmente aleatórios que se desenrolam desde o início de todas as coisas? A criação máxima de Deus? Apenas um presente, que deveríamos aceitar sem questionar ou filosofar a respeito? Quem poderia dizer, quem poderia afirmar com certeza? Haverá uma reposta correta ou, a exemplo das partículas quânticas, a verdade muda conforme o observador? Sinceramente… eu não faço a menor ideia! – ele falou, arrancando algumas gargalhadas da plateia. – Não, eu não sei o que é a vida – continuou –, mas posso dizer que sei uma coisa sobre ela: a vida não é justa. A menos que você considere justo um jogo de cartas marcadas, em que vencedores e perdedores já são designados e conhecidos de antemão, onde os competidores lutam com chances completamente desiguais. Sim, meus amigos, a vida é um jogo. Um jogo injusto e cruel. Tudo o que somos e seremos é definido no momento da concepção, sem a menor possibilidade de escolha e, a despeito das histórias bonitas sobre superação que vemos nos programas de auditório, não há como mudar isso. Vejam meu exemplo: claro que o conceito de inteligência renderia dias e dias de debate, mas simplificando ao senso comum, posso dizer que sou um homem inteligente, muito inteligente. Ao me ouvir dizer isso, algumas pessoas podem eventualmente me tachar como um sujeito soberbo, arrogante. Mas essas pessoas não compreendem que não falo isso para me gabar ou me promover. Estou apenas fazendo uma constatação do óbvio. Da mesma forma que constato o óbvio ao dizer que sou um cara franzino, de estatura bem abaixo da média masculina. Eu não escolhi isso. Em nenhum momento me perguntaram: “Laurence, você prefere ser um nanico inteligente de 1 metro e 61, ou um jogador de futebol americano?”.

Devo admitir que o Doutor Laurence Moss era um sujeito carismático e, naquele momento, até eu dei risada. Se a tal “Imersão Definitiva” fosse um fiasco, ele poderia tentar a sorte como humorista de stand-up comedy, pensei. Quando as risadas pararam de ecoar, ele continuou:

— Minha esperteza pode me levar a resolver problemas que fundiriam a mente da maioria dos humanos logo na primeira linha do enunciado, mas, por mais esperto que seja, nunca saberei como é ser atraente aos olhos de uma mulher. Sim, porque elas podem dizer “Ai, professor, adoro seu trabalho!”, mas na hora de se apaixonar, ainda continuarão preferindo os caras de 1 e 90. Nunca vou saber como é a emoção de subir mais alto do que todos os zagueiros, cabecear a bola alçada na área e estufar as redes aos 46 do segundo tempo, fazendo 60 mil pessoas irem à loucura em um estádio angustiado e enfurecido. Nunca vou sentir a emoção de ter milhares de fãs cantando junto comigo, chorando e iluminando a noite com um mar de isqueiros e telas de celulares acesas em um show ao ar livre. Nunca vou sentir essas, nem muitas outras coisas. Assim como um jogador de futebol provavelmente nunca sentirá o gosto de receber o prêmio Nobel de literatura, um astro do rock não saberá como é fazer uma cesta de 3 pontos e virar a partida no instante final. E, pensando um pouco mais a fundo: uma criança paralítica jamais saberá como é sentir o ar bater contra o rosto enquanto corre por um campo, um cego passará a vida num universo de escuridão e não poderá contemplar a beleza das flores, as cores vibrantes do mundo. Não falo isso tentando apelar ao sentimentalismo barato. A ideia é apenas mostrar algumas das várias facetas obscuras da tão aclamada vida. Diferenças que alguns tolos celebram, dificuldades que os desafortunados encaram como uma provação divina com o intuito de se autoconsolar. Apenas injustiças, na minha modesta opinião. Apenas um jogo sem escolhas, sem chances iguais. Algo imperfeito, mas… que pode ser corrigido.

Puxou o lençol que até então cobria um objeto no centro do palco, revelando sua invenção. Era uma maca, com alguns eletrodos e um capacete. Deus do céu, acho que todos ali, eu inclusive, ficaram com a sensação de ter esperado todo aquele tempo para ver só mais um monitor de ondas cerebrais ou algum videogame que prometeria funcionar com o poder da mente. A maioria levantou e foi embora, não conseguindo esconder a frustração. Eu respirei fundo, lembrei do currículo do palestrante, do discurso articulado que acabara de realizar e fiquei. Sem demonstrar constrangimento ou decepção com os espectadores esgueirando-se a passos rápidos pelas arquibancadas de madeira em direção à saída e tornando ainda mais diminuta sua plateia, o Sr. Moss prosseguiu:

— O que é a vida? Como eu disse antes, não faço a menor ideia. Mas, além de saber que ela é injusta, eu também sei do que ela é feita. Impulsos elétricos. Tudo o que nossos sentidos conseguem captar do mundo externo chega aos nossos cérebros na forma de impulsos elétricos. Simples impulsos elétricos. Sabendo quais áreas, quais grupos de neurônios estimular, podemos gerar qualquer tipo de sensação. Você pode se excitar apenas ao pensar em alguém que deseja, pode salivar pela simples lembrança do seu prato preferido, fazer a adrenalina jorrar em sua corrente sanguínea ao reviver na memória uma situação de ódio ou medo. Para nosso cérebro, pensamentos, lembranças, sonhos e realidade são praticamente a mesma coisa: todo o universo pode ser traduzido por zeros e uns. Então, por que permanecer nessa vida sem escolhas, que já foi escrita em pedra no momento da fecundação, quando temos “N” outros universos tão reais quanto esse a nossa disposição? Sim, nós temos. Essa máquina bem aqui oferece esses universos de infinitas possibilidades, onde cada um pode ser o que quiser, não o que a vida obrigou a ser. Não é um videogame, um jogo de realidade virtual. Não, é muito mais que isso. É a imersão definitiva. Que, agora, precisa de um voluntário para ser demonstrada.

Disse isso olhando diretamente para mim. Disfarcei, olhando em volta e percebi que era o único que havia sobrado no auditório. Bom, já estava ali mesmo, o que tinha a perder? Desci os degraus e cheguei ao palco, onde o Sr. Moss me cumprimentou e apontou para a máquina logo em seguida, convidando-me a deitar no aparelho. Enquanto ele “instalava” o capacete na minha cabeça e me espetava com agulhas, trocamos algumas palavras.

— Então, Sr. Leonardo, se pudesse escolher uma vida. Como ela seria?

— Como sabe o meu no… ah, o crachá – sorri, envergonhado.

— A gente sempre esquece que está com essa porcaria pendurada no pescoço, não é?

— Completamente…

— Mas então, como seria a vida que você gostaria de viver? O que você gostaria de ser?

— Engraçado, é uma pergunta que parece fácil, mas agora que preciso responder… nada me vem à cabeça. O que eu gostaria de ser? Sei lá… talvez um herói. Salvar o mundo, me sacrificar pelos inocentes, essas coisas. É, acho que isso seria legal.

— Ótimo, então vamos à imersão definitiva.

Ouvi uma tecla de computador ser pressionada, depois tudo ficou escuro e silencioso. Quando abri os olhos, estava deitado na lama suja de um campo de guerra, com gente morta, tripas e sangue por todos os lados. Percebi que estava usando um misto de uniforme militar com roupa de astronauta. Conforme recuperava a audição, ouvi gritos e explosões. Daí, olhei para cima e vi feixes azuis e verdes cortando o céu, disparado por naves espaciais. Uma gigantesca nave se distanciava lentamente. Deus do céu, me dei conta de que aquela era a nave mãe dos alienígenas, e ela carregava uma bomba destinada a aniquilar completamente a última grande metrópole da Terra. Eu precisava impedir, milhões de pessoas dependiam de mim. Corri o mais rápido que pude em meio ao caos, entrei no caça que havia pousado a poucos metros e alcei voo. Persegui o objeto colossal em formato de disco, fazendo 5 ou 6 naves menores se tornarem bolas de aço flamejante pelo caminho. Comecei a atirar contra aquela estrutura reforçada, mas era inútil. Senti o desespero da impotência, a angústia de não saber o que fazer. Suei frio. Chorei. Então, tive uma ideia. Uma ideia idiota e suicida, mas teria que servir. Voei diretamente de encontro ao coração do inimigo, a plataforma de onde as naves menores embarcavam e desembarcavam. Acredito que os alienígenas jamais esperavam que alguém fosse louco o bastante para realizar essa manobra. Demoraram a perceber o que estava acontecendo, e isso me deu tempo para entrar e ir com meu caça o mais longe possível, ali dentro do imenso galpão. Desci sob uma chuva de lasers, mas milagrosamente me esquivei de todos, ou pelo menos da maioria. Meu obro foi atingido e uma dor insuportável de queimadura alastrava-se por todo o braço. Mesmo assim, consegui adentrar os túneis de manutenção e logo estava na sala da bomba. Grudei explosivos e os programei para explodir em 5 minutos, tempo em que eu poderia escapar, mas ouvi os inimigos forçando a porta e descendo pelos dutos de manutenção por onde eu acabara de sair. Não poderia me dar ao luxo de esperar 5 minutos. Milhões de vidas inocentes estavam nas minhas mãos e eu fiz o que precisava ser feito. Senti o calor dilacerando meu corpo, senti o medo da morte. Mas em meu instante derradeiro, também senti uma imensa felicidade por ser um herói.

— AHHHHH… – gritei ao despertar, suando frio e tentando instintivamente remover o capacete.

— E então, como foi? – perguntou o dr. Laurence, com um sorriso satisfeito.

— Foi intenso. Foi quase… real – respondi, com as sensações do mundo virtual ainda impregnadas no corpo e na mente.

— Quase?

— Sim, em alguns momentos, eu parecia saber que era só uma simulação, como acontece nos sonhos, sabe? Não sei se me arriscaria da forma como me arrisquei se não tivesse essa consciência.

— Sim, eu sei o que você está dizendo. São alguns bugs dessa versão do sistema. Problemas serão corrigidos, assim que eu tiver tempo e… dinheiro… para fazer a versão 2.

Não era preciso ser nenhum gênio para saber onde o Sr. Laurence queria chegar. Trocamos contatos e voltei para casa, filosofando sobre as implicações morais que um aparelho daquele tipo poderia ter na sociedade. Poderia ignorar, fingir que não vi nada. Poderia até mesmo escrever um artigo ridicularizando o Dr. Moss, afundando-o ainda mais no ostracismo e descrédito em que se encontrava desde seu último empreendimento. Mas daí, olhei para minha fruteira, e ela estava cheia. Não de maçãs, peras ou bananas, mas de contas para pagar. Pensei nas coisas que queria fazer e nos lugares paradisíacos onde a minha mulher comentava vez ou outra que as amigas foram visitar com os maridos, em óbvias indiretas dizendo, em outras palavras: “também quero ir lá, quando você vai deixar de ser um fracassado e me levar?”. Quanto um projeto daquele poderia render? Ora, era só um videogame, por que eu estava tão em dúvida? O jogo está lá, quem quiser jogar, joga, quem não quiser, não joga. “Não sabe brincar, não brinca!” – não era esse o novo ditado? Se alguém se vicia no jogo e fica 48 horas seguidas até ter um colapso e morrer em frente à TV, a culpa não é de quem fez o aparelho, certo? Não é culpa da McLaren ou da Ferrari se um playboyzinho irresponsável pegar um de seus carros, dirigir 5 vezes mais rápido do que o limite de velocidade da estrada e atropelar algum pobre diabo no caminho, não é mesmo?

Indiquei o projeto na empresa, os chefões se interessaram e bancaram o Dr. Laurence. Em pouco tempo, ele fez a versão 2, a 3 e a 4 do sistema. Imersões cada vez mais definitivas. Uma febre mundial. Tudo rápido como um piscar de olhos. Arrebatador. Ninguém queria mais saber dos óculos, de celulares, de videogames, televisão. Ninguém queria mais saber de nada. Na versão 10, o mundo real havia se tornado um lugar silencioso, em que as pessoas queriam passar a menor quantidade de tempo possível. O contato humano, os vínculos de amor e amizade eram coisa rara. Na versão 12, os relacionamentos extinguiram-se quase completamente. Na décima terceira, e mais atual versão, nos dias atuais, o mundo está vazio. Quase todos estão em suas casas, definhando sozinhos, imersos definitivamente em seus sonhos, sentindo-se reis do universo infinito dentro de suas cascas de noz. Com taxa de natalidade zero, a humanidade caminha a passos largos para um fim melancólico.

Deus do céu, e é tudo culpa minha.

Pensei em entrar na imersão definitiva também, esquecer tudo isso, passar o resto da vida desfrutando prazeres e boas sensações. No final das contas, mais cedo ou mais tarde, todos nós morreremos mesmo, então que diferença faz? Não sei. Mas acabei optando por permanecer no mundo real. E agora, talvez por peso na consciência, talvez por puro tédio, planejo corrigir a besteira que fiz anos atrás, quando recomendei a invenção do Dr. Laurence Moss na minha empresa. Vou invadir a sala de servidores e destruir todo o programa, deletar os códigos-fonte, desconectar todos desse arremedo de vida em que se meteram. Não é hora de dar às pessoas o que elas querem, é hora de dar às pessoas o que elas precisam. E elas precisam de liberdade. De realidade.

Os servidores estão em alto-mar, longe da legislação de qualquer país. Isso era importante na época em que alguns ainda se importavam com leis e direitos. Vou até a cidade costeira e escolho um barco rápido. Navego por três dias e três noites. Tive sorte, não peguei tempestades ou quaisquer outras intempéries, apenas calmaria. Chego às imensas instalações e subo uma escada de metal. Por Deus, como gostaria de ter 18 anos novamente. Chegando ao topo, sinto como se tivesse acabado de escalar o Everest. Estou com braços e pernas queimando, respiração ofegante, suando igual um porco. Mas preciso continuar. Tudo está abandonado, é impressionante como ainda funciona. Entro sem dificuldade e começo a congelar na sala dos servidores. É muito maior do que pensei. Acabo me dando conta de que vim até aqui sem nenhum plano e agora estou parado, olhando uma imensidão de fios, sem saber o que fazer. Puxar tomada por tomada, talvez? Melhor tacar fogo. Mas… como? Droga… eu sei como.

Desço até o barco, pego os galões de combustível. Dor insuportável nos braços, mas não quero esperar mais um dia. Num esforço colossal, subo de volta e então me dou conta de que não vai adiantar nada espalhar gasolina no metal dos computadores. Bom, tem bastante madeira nas divisórias internas do galpão e… putz… tem um machado no barco. Desço, pego o machado, subo e quase desmaio de tanta dor. Tenho o impulso de descansar, mas sinto uma estranha necessidade de terminar isso logo. Começo a cortar madeira. A tarde será longa.

Quatro horas e uma tendinite depois, toda a madeira e gasolina estão espalhadas pelo frio saguão dos servidores. Um calafrio percorre a minha espinha quando não lembro com certeza se peguei o isqueiro ou se deixei no barco. Tateio o bolso e respiro com grande alívio ao perceber que ele está ali. Vou fazendo um rastro de combustível até a saída, quando ouço algo que faz minha alma congelar de verdade. Passos metálicos. Observo por cima das máquinas e vejo um robô-vigia caminhando em minha direção. Provavelmente estava carregando as baterias no sol, agora está com força total, pronto para me atacar. Não há tempo para nada. Ateio fogo e corro para a porta. O guardião não me persegue. Está tentando conter o incêndio. E o miserável vai conseguir se eu não fizer nada. Droga.

Bom, já estou velho. E… já estou aqui mesmo. Volto correndo em meio ao fogo, e com toda a força que ainda me resta, desfiro uma machadada no robô. Não consigo derrubá-lo, mas pelo menos me mostro como ameaça o suficiente para deixá-lo dividido entre me combater e apagar o fogo. Ele decide continuar se dedicando ao fogo e recebe nova machada. Dessa vez muda de ideia e tenta me atingir. Esquivo, me jogando instintivamente para trás –vejo o golpe passando a milímetros do meu nariz. Caio no chão e ele tenta pisar na minha cabeça. Uma vez mais, consigo me desviar no último instante, mas não rápido o bastante para sair ileso – o pé metálico arranca minha orelha. Sangue, dor, calor infernal. Vou morrer, não há dúvida, mas eu o atrasei por tempo suficiente e tudo começa a explodir. Sinto o cheiro da minha própria carne queimando, o medo acalentador trazido pela certeza da morte. Mas também sinto, em meu instante derradeiro, o alívio por corrigir um erro, a glória por ter salvo a humanidade, a imensa felicidade de ser um heró…

— AAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH…

— Então, senhor Leonardo, como foi a imersão dessa vez? Como deve ter percebido, fiz várias melhorias nessa versão 2. Espero que sejam suficientes para o senhor recomendar meu projeto em sua empresa – o Dr. Laurence sorriu e me estendeu a mão, enquanto eu me levantava da máquina, ainda atordoado. – E então, temos um acordo?

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