[Conto] Ela

ela

Ela apareceu meio que do nada, entrou na cafeteria e pediu, com a voz cansada e um sorriso efêmero, quase triste:

— Um café…

— Sim, senhora. Saindo o melhor caf…

— Ah, com leite e… sem espuma.

— Café com leite sem espuma, sain…

— E… com um pouquinho de canela também, por favor.

— Pode deixar, em um minuto vou servir o melhor café com leite, sem espuma e com canela que a senhora já tomou na vida.

Ela não disse nada, apenas concordou, meneando levemente a cabeça e esboçou outro sorriso sem alma. Puxou a cadeira, aparentemente mais pesada do que esperava. Madeira de qualidade, feita para durar. Enquanto aguardava, seus pensamentos se perderam em meio ao turbilhão de passos apressados, jornais abandonados aos caprichos do vento, conversas e arrulhos incessantes vindos da praça. Os seios, pequenos e firmes, sobressaíam no corpo esguio, coberto por um vestido preto, de muito bom gosto por sinal. O rosto de traços simples não se destacava na multidão, mas certamente seria uma visão arrebatadora quando iluminado pelos primeiros raios de sol. Cabelo castanho, liso, preso improvisadamente por um lápis. Tudo isso estava ali naquele instante, mas o espírito estava em outro lugar, em outro tempo.

Ao receber o café, balbuciou algo parecido com “obrigada” e voltou o olhar para a catedral, que exibia a imponência de pedra, concreto e vitrais coloridos, do outro lado da esquina. Adoçou com açúcar-mascavo – adoçante deixa gosto amargo na boca e, como dizia minha avó: “de amargo já basta a vida”. O primeiro gole a trouxe de volta à realidade por um instante fugaz – afinal, eu estava falando sério: aquele era o melhor café que ela já havia tomado. Mas seus pensamentos perderam-se novamente, antes que a xícara, agora manchada de batom, reencontrasse o pires. O cheiro da canela a fez relembrar um dia feliz, que ganhava contornos cada vez mais melancólicos na memória – o dia do casamento. A festa, o som do piano e dos violinos, os sorrisos, as juras de amor, o sentimento de que tudo duraria para sempre. Porém, ao contrário das cadeiras aqui da cafeteria, os relacionamentos e as juras de amor não são feitos para durar. Se a felicidade pudesse ser acumulada, a que foi gerada naquele dia seria suficiente para durar uma vida inteira. E até um pouco mais. Mas, desafortunadamente, ela não pode. E não adianta nada se lembrar de um começo feliz durante a vivência de um final triste. Talvez as lembranças só piorem as coisas. Talvez.

Lágrimas escorreram em sincronia com o último gole. Secou o rosto com guardanapo e, respirando fundo, decidiu que lutaria pelo amor, até o fim. Revirou a bolsa e dela tirou uma nota de cinco, que colocou sobre o balcão depois de uma tentativa não muito bem-sucedida de desamassá-la. Sorriu para si mesma. Ainda triste, mas com o semblante renovado, cintilando a luz da esperança que só brilha nos corações apaixonados. Saiu apressada, arrumando o vestido preto, sem esperar pelo troco. Sem esperar por mais nada.

E a história dela acabou.

Porque as histórias sempre acabam quando os clientes saem da minha cafeteria. Pelo menos as histórias que eu imagino para eles, enquanto lhes sirvo o melhor café com leite, sem espuma e com canela que já tomaram em suas vidas.

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