[Conto] Formigas e Buracos Negros

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— Revisou tudo?

— Sim, várias vezes.

— Quantas?

— Dez elevado a 350 vezes, professor.

— Ótimo, não podemos dar nenhuma mar…

Ela ri, e isso me traz de volta à realidade, fazendo com que eu veja o quanto estou concentrado e ansioso com a experiência de amanhã. Só em um estado de transe hipnótico profundo alguém poderia deixar de notar a ironia em um número tão absurdo. O sorriso me transmite 80% de confiança. O toque amigável no meu braço e a voz doce completam os 100.

— Relaxa, professor, vai dar tudo certo.

— Engraçadinha. Sim, vai dar tudo certo. O superacelerador vai funcionar, os prótons vão se encontrar, como nossos átomos se encontrarão um dia, quando tudo colapsar novamente na singularidade, vão colidir, como Via Láctea e Andrômeda colidirão daqui 15 bilhões de anos. Mapearemos os resultados e, na infinidade de números frios, descobriremos a beleza de toda uma nova miríade de partículas, quarks, bósons, branas e cordas. Presenciaremos um Big Bang em miniatura. Ficaremos cara a cara com Deus, ou provaremos definitivamente Sua inexistência. Seremos lembrados, referenciados e reverenciados, por todo o resto da efêmera história da humanidade.

— Nossa, que poético! Gosto de te ver assim, professor: exalando confiança e otimismo! Só espero não ser lembrada como uma das responsáveis por criar um buraco negro que engoliu o mundo inteiro e acelerou a tal efemeridade da nossa história. Bom, se bem que daí não teria ninguém para se lembrar disso e me xingar, mas, mesmo assim, não seria legal criar um buraco negro. Eu acho…

— Você sabe que não existe nenhum risco disso acontecer. É impossível.

— “Nada é impossível”, professor. Lembra quem me disse isso? O senhor! Viu como eu sou uma aluna aplicada? Lembro de tudo! Mas eu sei que é beeeem difícil, só falei para descontrair um pouco. Falando em descontrair, o pessoal vai beber um pouco, o senhor não quer vir conosco?

— Não… não, não quero, não, obrigado. Eu vou observar um pouco aquela minha outra experiência e depois dormir. Nosso dia será cheio amanhã e não conto mais com o mesmo vigor da juventude que vocês possuem.

— Ah, se o senhor prefere ficar com suas formigas do que com a gente, então tá. Tudo bem. Não estou magoada, não, viu?

— Não… não, não é isso, você sabe que…

— Estou brincando de novo, bobin… quero dizer… professor! Estou indo lá, tá? Não vai perder a hora olhando essas formigas. Não quero sair do lado de ninguém com olheiras de urso panda nas fotos que ilustrarão a manchete: “Maiores cientistas do mundo descobrem a VERDADEIRA partícula de Deus”.

Eu dou risada, encantado. Não tem como não se encantar. Ela é a mulher mais inteligente que conheci na vida, e acho que a mais divertida também. Além disso, é linda, jovem e me olha com a admiração que as alunas costumam ter pelos professores. É uma grande tentação, mas não posso me envolver – poderia interferir no trabalho. E o que estamos fazendo aqui, os frutos que esses estudos trarão para a humanidade, nossa meta, é muito mais importante do que qualquer paixão, do que qualquer satisfação individual. Mantenho a concentração e me despeço, a uma distância segura. Ela acena, com um olhar decepcionado. Quando fecho a porta, se afasta no corredor, gritando feito uma garotinha no jardim de infância, só para me provocar:

— E aposto que o universo continuará se expandindo eternamente, não colapsaremos de novo em uma nova singularidade! O senhor está errado, professor… Ê–RÁ–DÔ. Léro, léro, lérooooo…

Menina. Saudades da época em que eu podia me dar ao luxo de fazer coisas desse tipo, sem me achar ridículo. Se bem que… pelo que me lembro, nunca saí gritando “léro, léro, léro“ no corredor do maior centro de pesquisas do mundo. Nem em nenhum outro. Mas tudo bem. Agora estou aqui, observando as minhas formigas – será que daqui 20 anos vou lembrar dessa cena e me achar ridículo? Talvez. Não se eu conseguir provar o que quero provar.

Formigas.

Agora, a 105 vai acelerar, enquanto a 304 se desequilibra levemente com a folha que está carregando. Uma folha trinta e duas vezes mais pesada do que ela, diga-se de passagem. Aquela outra ali, é a… 97… sim, a 97, vai mudar de direção repentinamente em 3 segundos… 2, 1… perfeito! Agora você, 132, corra e ultrapasse a 22. Corra, corra, corra e… não! Droga, mudou de direção. De volta à codificação do simulador, preciso ver o que deu errado. Uma hora eu acerto, não tenho pressa. De qualquer forma, não tenho computadores bons o suficiente para fazer o que quero. Terei de esperar os computadores quânticos – se é que estarei vivo ainda quando eles chegarem, mas vou deixar a ideia pronta e alguém continua o trabalho. Determinístico. Todo o comportamento do universo, desde a menor partícula até o mais complexo dos seres vivos já está pré-definido, escrito. Tudo é matemática. Não há aleatoriedade, nem no mundo quântico – tudo pode ser previsto, basta que se saiba as condições iniciais. Não havendo aleatoriedade, obviamente não existe livre-arbítrio. Não havendo livre-arbítrio, não existe Deus – e é nisso que eu quero chegar. Não é birra com o criador, só acho que a humanidade merece conhecer a verdade, mesmo ela não soando muito agradável em um primeiro momento. Mas de certa forma, sei que isso é só um sonho – no fundo sei que nunca teremos poder computacional o suficiente para prever os movimentos de nada muito maior do que um formigueiro – e só isso não vai convencer ninguém.  É impossível.

“Nada é impossível”. A frase me vem à cabeça, enquanto olho uma equação na lousa atrás do formigueiro. Nunca consegui resolvê-la. Suponho que algo “estranho” poderia surgir no resultado. Talvez a possibilidade de criação de um buraco negro, não sei. As chances são mínimas, infinitesimais. Mas, mesmo assim, suponho que deveria ter compartilhado essa equação com o mundo, apesar de saber que isso provavelmente emperraria as pesquisas por muitos anos. Agora, na véspera de colocar o maior projeto da minha vida para funcionar, estou com medo de que essa minha arrogância e falta de ética custe caro à humanidade. As chances são ridículas, seria mais fácil todos os meus átomos materializarem-se em Saturno nesse exato instante. Mas – “nada é impossível”. “Nada é impossível”, a frase é repetida em tom hipnótico na minha mente.

Formigas. Sono. Olhos pesados. Formigueiro. Laboratório. Olhos pesados. Formigueiros. Formigueiros? Não… não são formigueiros…

O que… o que é isso?

— Bem-vindo, humano. Poucos da sua raça contemplaram esse laboratório, sinta-se extremamente privilegiado.

— Estou meio sonolento… quem é você? Que lugar é esse?

— A sonolência é normal. Na verdade, você está dormindo e recebendo os estímulos auditivos e visuais através dos meus nano robôs, implantados no seu córtex frontal nesse exato instante. Não temos muito tempo, mas suas perguntas merecem ser respondidas. Primeiro: que lugar é esse? Esse é o meu laboratório. Segundo: quem sou eu? Sou um cientista, como você.

— Você é um alienígena? Estou vendo outro planeta, é isso?

— Diria que é um pouco mais complexo do que isso. Tente pensar em uma escala muito maior. Como dizia, sou um cientista, igual a você. E, também assim como você, gosto de observar… formigas. Veja, aqueles são os meus “formigueiros”.

Minha visão clareia um pouco, mas é como se eu estivesse sonhando. O laboratório é imenso, e os tais “formigueiros” são grandes bolhas, que ficam suspensas no ar. Mas não são formigas que estão se movimentando dentro dessas bolhas, por Sir Isaac Newton, são… galáxias. Meu interlocutor assumiu uma forma humanoide enquanto conversávamos, ele parece feito de um líquido gelatinoso ou algo do tipo.

— Aquilo ali é o que eu estou pensando? – eu pergunto, ainda incrédulo.

— Sim, são universos. O seu é aquele mais ao centro. Entendeu agora a escala em que estamos? Teoricamente você poderia me chamar de “Deus”, mas essa observação seria imprecisa. Na verdade, “cultivo” todos esses universos, tentando descobrir se de fato existe ou não um Deus. Mais ou menos como a sua experiência do livre-arbítrio com as formigas, porém, mesmo com todo o poder computacional que tenho a disposição, não consegui provar a inexistência de um ser superior. E se houvesse um Deus, ele seria o mesmo para nós dois? Estaria Ele nesse momento me observando aqui nessa casca de noz, onde me julgo rei do espaço infinito? Ele se preocuparia com os meus atos e com os atos de seres que eu teoricamente criei, como você, por exemplo? Ou Ele só me utilizou como meio para que a vida no seu universo fosse possível? Vida. Você não imagina como a vida é um fenômeno raro. Em todos esses 256 universos aqui, existe vida apenas em oito planetas. Oito. E em apenas dois desses planetas existe vida inteligente, aparentemente por pura coincidência no mesmo universo: o seu. Mas eu não te chamei aqui para fazer um tipo de excursão escolar, então, vamos ao ponto: preciso que você destrua o seu superacelerador de partículas que começaria a funcionar amanhã.

— O quê? Por que isso? – fico surpreso com a ordem.

— Existe uma chance infinitesimal, de 10 elevado a 350 para ser mais preciso, de que a sua experiência gere uma partícula capaz de fazer o seu universo entrar em colapso. E o colapso pode se expandir para o meu universo e, como pode imaginar, não quero correr esse risco. Se você se negar a fazer, serei obrigado a destruir o seu universo e meus dois planetas com vida inteligente, que demorei tanto tempo para conseguir.

— Por que você mesmo não destrói o acelerador, então?

— Infelizmente, as bolhas são extremamente frágeis e não consigo mandar mais do que nano robôs de observação e transmissão para dentro delas – uma bomba ou algo do tipo poderia abalar a estrutura e estourá-las, senão eu faria o serviço sozinho. Portanto, sem mais rodeios, destrua a máquina e conceda pelo menos mais alguns anos de vida ao seu mundo. Agora vá, não há tempo a perder.

Acordo com dor de cabeça. O dia já clareou. Sonho esquisito. Um calafrio percorre minha espinha quando olho a lousa – a equação está preenchida. Necessitaria de mais tempo para interpretar o resultado com precisão, mas só de olhar já dá pra ver algo bem mais terrível do que um buraco negro saindo dali. Chances remotas, mas… e agora? Destruo o grande projeto da minha vida, por causa de uma equação e de um sonho com um alienígena que coleciona universos? E se não foi um sonho? No fundo eu sei que não foi, afinal, como eu poderia ter resolvido a equação enquanto dormia? Não sou sonâmbulo (não que eu saiba), e a porta está trancada, impossível ter entrado algum faxineiro estilo “gênio indomável” aqui. Por mais louca que seja a ideia, eu sei, sinto que nesse exato instante estou sendo monitorado por um ser completamente fora da compreensão humana, que pode destruir todo o meu universo caso eu descumpra suas ordens.

Vou até o acelerador, tenho pouco tempo, logo a imprensa estará aqui. Mas como vou destruir isso simulando um acidente? Preciso continuar com a minha reputação, aconteça o que acontecer. Já sei. Sei exatamente o que vou fazer. Começo a mexer nos computadores, para “Deus” não pensar que estou de braços cruzados. Espero que “Ele” não consiga ler pensamentos. A experiência consiste em acelerar um próton em uma direção, outro próton na direção contrária e torcer para os dois se encontrarem em algum lugar no meio do caminho, liberando energia, o bóson de Higgs, grávitons, a partícula aniquiladora de universos e tudo mais. Claro que não vamos correr esse risco, então vou liberar um próton e acelerá-lo bastante. Em vez de liberar o segundo, vou alterar ligeiramente a rota do primeiro, para que ele colida com a parede do acelerador. Na velocidade em que estará, isso vai causar um enorme rombo e anos de manutenção. Esse é o plano. Quando tudo está pronto para funcionar, minha equipe e a imprensa começam a chegar.

— Ficou vendo as formigas até tarde, né professor? Falei que o senhor ia ficar com olheiras de urso panda?!

— É, acho que passei um pouco da hora. Mas a senhorita também está com o olho inchado, típico de quem exagerou na dose de álcool ingerida recentemente.

— Só faltou o senhor lá…

— Se der tudo certo aqui, hoje eu bebo com vocês. Prometo.

— Vai dar tudo certo.

Libero o primeiro próton. Ele vai ganhando velocidade. Mais e mais velocidade. Começo a perceber a angústia transparecendo no semblante da equipe. Mais e mais velocidade. Minha aluna preferida me olha com cara de interrogação, começa a se agitar, demonstrando incomum nervosismo, e, em seguida, finalmente sussurra “libera o outro logo” no meu ouvido. Se apertar “ENTER”, libero o outro próton e com ele a chance de destruir o universo e até um pouco mais. Se apertar “ESC”, altero a direção do primeiro, destruo o acelerador e a minha pesquisa, mas salvo o mundo. “ESC” ou “ENTER” – no final tudo se resume a ligado ou desligado, um ou zero, sim ou não. Uma chance em 10 elevado a 350. É pouco, muito pouco. Seria muito insano da minha parte arriscar? Seria muito insano transferir a responsabilidade dessa decisão para “Deus”? Ele jogaria dados nessa situação? Ele também é cientista… estaria disposto a realmente destruir seu melhor “formigueiro” por causa de uma chance tão remota? Se ele realmente não quisesse arriscar, já não teria destruído a bolha?

E, em última instância, se tudo colapsar – que diferença vai fazer? Que diferença fazem as formigas? Uma chance em 10 elevado a 350 de acabar com tudo e descobrir se Deus existe. “ESC” ou “ENTER”, “ESC” ou “ENTER”…

Aperto “ENTER”.

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