[Conto] Mesmo que Custe sua Alma

mesmoquecustesuaalma_destaque

Ao norte do meu reino, já perto o suficiente do mar para se ouvir o espumar das ondas e o grasnar esfaimado das gaivotas, existe um aglomerado de colinas, tão imponentes que os clérigos costumam dizer que foram criadas pelos deuses numa noite de orgia particularmente inspirada, nos tempos em que o mundo ainda era jovem. Da minha parte, acredito que essas pedras escarpadas e traiçoeiras, de um cinza carrancudo onde até o limo parece ter medo de subir, só podem ser obra dos socos, cabeçadas e pontapés que deram os demônios na parte interior da terra ao tentar fugir do inferno. Seja como for, essas malditas montanhas são de natureza arredia, tiram a coragem do coração dos fracos ao primeiro vislumbre, quebram ossos e ceifam a vida dos incautos que ousam subestimá-las. Mas, assim como as melhores mulheres, oferecem néctares e delícias sem igual aos poucos que conseguem domá-las e sobrepujar seus embustes – já vi muitas coisas na vida, mas nenhuma se compara à visão que se tem do mundo no topo das colinas ao norte do meu reino.

Um bom lugar para morrer.

Por isso gosto de vir aqui.

Sou Alan Arunor, o invencível, filho de Rostyok Arunor, o justo, neto de Brayan Arunor, o intrépido, e descendente de tantos outros Arunors com títulos mentirosos que o estômago revira só de lembrar. Assumi o trono ainda muito jovem, governei com justiça, sempre pensando no melhor para meu povo, expandi o território que herdei e angariei recursos para cultivar a terra, erradicando assim a fome de toda população. Protegi o reino de incontáveis ameaças, lutando na linha de frente junto aos soldados, até que me deparei com um inimigo terrível que pensou ter me derrotado num primeiro momento. Mas, fazendo jus ao título de “o invencível”, consegui reverter a situação e restabelecer a ordem, garantindo que a segurança do meu povo fosse mantida até os dias atuais, em que a gélida presença da morte acompanha meus passos feito ave carniceira seguindo um animal doente.

Esse é um jeito de contar a história.

Resumido, heroico, bonito. Perfeito para ser alardeado pelos bardos nas tavernas e escrito no livro de páginas douradas que guarda o registro da vida e dos feitos da minha linhagem. Não seria, de forma alguma, uma trama inventada, tampouco, ao contrário do que se fez na história de muitos reis que viveram em tempos de paz e manusearam muito mais o metal das taças de vinho que o das espadas, precisou ser floreada com excertos que passam a ideia de períodos agitados na linha de frente dos campos de batalha. Não. É tudo verdade.

Mas, como o povo costuma dizer: o diabo mora nos detalhes.

* * *

Eu tinha oito, ou no máximo nove anos, quando escalei essas colinas pela primeira vez. Meu pai me trouxe até aqui, sem dizer uma palavra durante o caminho. Ele cavalgava Scalox, o corcel de pelos negros, crina branca e ferraduras de relâmpago. Eu vinha em um burro marrom conhecido apenas como “burrico”. Era lento e desengonçado, mas foi o único animal com que me afeiçoei na vida. Chegamos ao pé da primeira montanha, desmontamos e então meu pai disse, já ganhando as primeiras pedras:

— Amarre os cavalos e depois suba. Estarei esperando lá em cima.

As amas do castelo contavam muitas histórias para assustar as crianças, algumas delas tinham como cenário as pedras de semblante mórbido que se agigantavam à minha frente naquele momento. Batedores experientes retornando ao reino com fraturas expostas obtidas ora na subida, ora na descida, ajudavam a dar veracidade às lendas. Fiquei com medo. E meu pai percebeu isso, mesmo sem olhar.

— Se não serve para subir num amontoado de rochas – ele disse –, não servirá para governar o reino. Se for o caso, será melhor que escorregue na escalada e morra de uma vez.

Eu subi. Quase caí por duas vezes, o que teria encurtado minha passagem por esse mundo maldito, mas subi. Cheguei ao topo sem fôlego, mas a vista me recuperou de imediato. Uma vastidão infinita, por todos os lados que se olhasse. Bem lá em baixo as ondas investiam com violência, como se estivessem em guerra perpétua contra as falésias. O vento batia forte e gelado, trazendo gotículas do mar que impregnavam a boca com gosto de sal e se acumulavam nos cabelos e sobrancelhas. Meu pai então apontou para nossa cidade, que dali parecia apenas um brinquedo, e perguntou: “o que você vê ali?”. Pensei que ele se referia a alguma coisa além do óbvio, algo que eu não conseguia enxergar por mais que apertasse os olhos com a mão em pala à testa. Ainda tentando identificar algo diferente, torci a boca para baixo, ergui os ombros, balbuciando “sei lá”, quase involuntariamente. Recebi como resposta um tapa dado com as costas da mão, que parece doer até hoje.

— Da próxima vez que me responder dessa forma, te jogo daqui de cima, ou arranco sua cabeça, caso não estejamos num lugar alto. Entendeu?

— Sim… sim, senhor… – confirmei, limpando no antebraço o sangue que escorria do nariz.

— Então, o que vê? – ele apontou novamente.

— Eu vejo… nossa cidade e nosso castelo. Apenas isso, pai – respondi, num tom de quem pede desculpas.

— Pois é o que há nessa direção: nossa cidade, nosso castelo e nossa gente. E lá, o que vê? – dessa vez apontou para o oeste, para onde o sol já se encaminhava a passos largos por detrás das nuvens de chumbo.

— As fazendas do reino, os campos de cultivo… – havia aprendido a lição e respondi rápido. – Depois, até o horizonte, vejo só as árvores perversas da Floresta das Aparições.

— E lá? – questionou mais uma vez, virando-se e apontando para o leste, após um raro sorriso.

— O oceano. E, bem distante, uma porção de terra, não sei ao certo…

— Aperte mais os olhos…

Eu obedeci e o espanto transbordou no meu semblante quando entendi o que ele queria me mostrar. Com se o horizonte fosse um espelho, ali estava também uma cidade, ladeada por falésias ao sul e oeste e por montanhas ao norte. O que estava mais a leste não se podia ver, mas apostaria que era também uma floresta escura, infestada de criaturas terríveis.

— Aquilo é…

— Sim. Uma cidade, parecida com a nossa – ele completou minha frase e me passou uma luneta, para que eu pudesse ver mais detalhes. Num primeiro momento me pareceu que as esferas de vidro mais distorciam que aproximavam, mas depois me adaptei e vi com mais clareza. A similaridade era assustadora, havia ali até algo que lembrava um castelo. – O que acha que eles fazem ali? – meu pai tornou a perguntar, depois de um tempo.

— Não sei, pai… – falei, quase cometendo o equívoco mortal de dar de ombros novamente.

— Vou te dizer o que eles fazem ali… – começou a falar, pegando a luneta de volta. – Eles criam animais e cuidam da lavoura, comem, bebem, cagam, mijam, reclamam do frio no inverno e do calor no verão. Os homens caçam, treinam com espadas e escudos e se embebedam nas tavernas e as mulheres cozinham e cerzem de dia e abrem as pernas para os homens bêbados à noite. E depois abrem as pernas para parir os filhos, que vão mamar em seus peitos para crescer e começar tudo de novo. Exatamente como nós fazemos. E sabe o que mais? Eles também sobem naquelas montanhas – apontou e inclinou a cabeça, como se mirasse uma flecha invisível –, e olham para cá. E ficam pensando no que nós fazemos aqui. Sabe o que isso quer dizer?

— Não… – engoli seco, com medo de que a resposta não agradasse.

— Quer dizer – ele prosseguiu como se eu nem estivesse lá –, que temos ali um inimigo perigoso, do tipo que nunca enfrentamos antes. Nossos antepassados lidaram com ogros, trolls, goblins. Ainda hoje essas criaturas nos espreitam na escuridão da floresta, mas, apesar de fortes e traiçoeiros, são tão estúpidos quanto os bois que arrastam nossos arados. O mesmo vale para as tribos de orcs que passei metade da vida combatendo. Nós sabemos o que esperar deles. Mas dali… – esticou o queixo na direção da cidade além-mar – não fazemos a menor ideia.

— Se eles são parecidos com a gente, será que não poderíamos nos unir?

Meu pai respondeu a pergunta com um olhar de desaprovação que quase me fez desejar ter levado um tapa no lugar. Depois falou, com a voz mais cortante que o vento:

— A paz só é desejada pelos fracos. Um recurso conveniente apenas quando não há possibilidade de dizimar o inimigo. Enquanto houver alguém, de outro povo ou outra raça, com capacidade para erguer uma espada, sua cabeça correrá o risco de ser cortada, suas vilas pilhadas, seus cavalos roubados e suas mulheres estupradas. Se um dia duvidar disso, mesmo que por um instante sequer, então nesse dia você será o maior de todos os tolos. Um tolo que colocará em risco a si próprio e a todos que deveria proteger. Um tolo que jogará na latrina o nome da família Arunor, junto com os esforços e sacrifícios de seus antepassados. Nós comemos as melhores comidas, tomamos as primeiras safras dos vinhos e levamos para cama as mulheres que bem entendermos, mas isso tem um preço: o povo precisa se sentir seguro sob nosso comando. Você entende isso? É nosso dever proteger o reino. Quando chegar a sua hora, cumpra sua obrigação, proteja o reino – agora ele me segurava pelos ombros e me encarava com olhos de carvão em brasa –, mesmo que isso custe a sua alma. Você vai fazer isso? Ou devo atirá-lo ao oceano e adotar um bastardo em quem possa confiar meu legado?

Eu era só um menino. E senti o mundo inteiro pesar sobre meus ombros. Mas, mesmo sem entender completamente o significado de todas aquelas palavras, eu prometi, com o ímpeto resoluto que jamais abandonaria minha voz dali em diante:

— Eu vou fazer o que for preciso, pai. Eu vou fazer…

* * *

Rostyok Arunor morreu poucos anos depois, emboscado por um troll da floresta, um dos inimigos de quem ele “já sabia o que esperar”. Estávamos caçando um javali e nos dispersamos dos soldados que nos acompanhavam. Chegamos perto demais da borda da Floresta das Aparições e antes que pudéssemos ter qualquer reação, pulou das sombras um monstro duas vezes maior que o maior homem do reino. Um monstro de pele escamosa e garras afiadas, que foram certeiras na garganta do meu pai. Eu estava um bocado para trás, pois o burrico, que eu teimava em montar mesmo nas caçadas, não tinha ficado mais rápido com o passar dos anos. Tentei acelerar, mas, diante daquela criatura medonha, o burro empacou. Desmontei e corri, sacando a espada, sentindo o fogo jorrar nas veias mais do que já havia sentido em qualquer caçada. Scalox relinchou, empinou e deu meia volta, deixando o corpo de meu pai pendurado na cela. Ele correu em minha direção (na verdade, correu na direção de casa, e eu por acaso me encontrava no caminho) e tive a ideia de tentar montá-lo.

Quando ele passou correndo, tentei segurar a correia para tomar impulso e pular sobre seu lombo, mas minha mão enganchou e fui arrastado, depois de deslocar o ombro com o tranco. Larguei a espada e tentei me desvencilhar, em vão. Enquanto me afastava, esfolando as pernas no chão de terra, ouvi o zurro desesperado do burro. Chacoalhando para cima e para baixo, já quase sem consciência, vi o troll abatendo-o com um único golpe.

E dando a primeira mordida ali mesmo.

* * *

A coroa nem teve tempo de se aprumar na minha cabeça e eu já mandei reunir o exército, disposto a marchar em direção à floresta. As tais “aparições” relatadas pelos fazendeiros e contadas pelas amas às crianças que desobedeciam as ordens eram então verdadeiras, e nossas fronteiras não estavam tão seguras quanto pensávamos. Um conselheiro, receoso das decisões tomadas por um rei tão jovem, tentou me dissuadir:

— Senhor, essas criaturas devem ser enfrentadas com mais cautela. Os homens têm medo dos perigos desconhecidos que se embrenham na floresta…

— Nós vamos marchar, e mostraremos quem deve ter medo de quem por aqui – falei, montado em Scalox, trajando a armadura de batalha prateada que era de meu pai e de meu avô antes dele, empunhando Língua do Diabo, a espada de lâmina flamejante que diziam ter sido forjada pelo deus ferreiro em pessoa, quando anões e elfos ainda lutavam pela supremacia do mundo.

— Mas, senhor…

— Deseja que sua cabeça continue unida ao pescoço, meu bom conselheiro? – fulminei-o com o olhar, soando mais parecido com meu pai do que gostaria.

As ferraduras puseram-se a castigar a grama no mesmo instante.

Fomos recebidos por azagaias e pedras, assim que nos aproximamos da floresta. Algumas passaram longe, outras de raspão. Algumas foram aparadas pelos escudos, mas eram lançadas com tanta força que derrubavam os cavaleiros e os tiravam de combate apenas com o tranco. Umas tantas, porém, encontraram os corações e gargantas, dos homens e dos cavalos. Respondemos com flechas de fogo, que tiveram a felicidade de incendiar uma faixa atrás das linhas inimigas, obrigando os monstros a sair de onde estavam entocados. Poderíamos ter continuado a atirar e vencido facilmente aquele punhado de inimigos. Mas vitórias fáceis não fazem a fama de ninguém. Ordenei que os arqueiros parassem, desmontei Scalox e fui andando na direção dos monstros.

— Vocês conseguem me entender? – perguntei aos trolls, confiando nas lendas de que um dia todas as criaturas falaram a mesma língua comum, que era falada pelos deuses e pelos demônios em eras remotas.

— Rusgnör entender homem pequeno… – o maior deles respondeu.

— Rusgnör, hein? Eu contra você, o que acha? Se você vencer, meus soldados vão embora. Se eu vencer, levo seus amigos como escravos. O que me diz?

— Rusgnör contra homem pequeno… sozinho?

— Isso mesmo… – confirmei, abrindo os braços e sorrindo com confiança.

Os trolls gargalharam. Senti a apreensão dos soldados, a hesitação no pisotear inquieto dos cavalos. Provavelmente já pensavam em quem seria o próximo na linha de sucessão. “Se é morrer que homem pequeno quer…”, Rusgnör disse, investindo na minha direção. Foram suas últimas palavras. Esquivei da garra que veio de cima para baixo e, agachado, fiz um rápido giro lateral com a espada, cortando o ar e as pernas do troll, à altura dos joelhos. Antes que ele tombasse, a Língua do Diabo lambeu de novo, deixando um rastro flamejante nas costas do finado Rusgnör. Os outros, como já esperado, me atacaram em bando. Eu tinha recém-completos dezessete anos, não era tão forte como fiquei depois, mas era ágil como duvido que outro homem venha a ser. Eu lutava como um deus das batalhas e meus soldados viam isso pela primeira vez. Fatiei os trolls, um a um. Por orgulho, por reputação, por ego, por crueldade.

E por vingança.

Afinal, um daqueles miseráveis havia matado meu burrico.

* * *

Depois dessa primeira batalha, os soldados iriam comigo até o inferno se necessário e acreditariam em mim mesmo se eu dissesse que poderia vencer um dos lordes abissais usando apenas as mãos. Assim, avançamos pela floresta, eliminando trolls, goblins, ogros e o que encontrássemos pela frente. Não era minha intenção matá-los. Não todos. Alguns eu desejava capturar, para utilizar a força bruta que possuíam. Mas eles preferiam morrer a se tornar escravos e não nos deixavam escolha. Um dia, porém, os deuses lançaram seus dados, e isso mudou. Eu tentava convencer um ogro a se deixar capturar, segurando o filho dele, ainda um bebê, no fio da espada. Ameaçava degolar a criança caso ele não colaborasse. O miserável me entendeu, mas mesmo assim continuou a se debater tentando se desvencilhar das cordas. Eram necessários quatro soldados para segurar cada braço. Estava prestes a dar a ordem de eliminá-lo, quando fui surpreendido por uma voz de mulher velha, rouca e maligna de um jeito que me arrepiou até os ossos, vinda da floresta:

— O reizinho-moço num vai consegui dominá eles assim, ah, num vai não…

Todos ficaram em um silêncio amedrontado (até o ogro), tentando identificar quem falava aquelas palavras. Percorri o olhar pelas árvores, mas só vi as folhas farfalhando traiçoeiras e os galhos, retorcidos como as unhas dos mortos que continuam a crescer dentro dos caixões.

— Quem está aí? Apareça, se não quiser morrer… – foi uma das poucas vezes em que ameacei sem ter certeza se poderia cumprir.

— Calma, reizinho-moço, calma que a véia aparece… – das sombras saiu uma criatura, tão enrugada quanto encurvada, pouco maior do que uma criança de cinco anos, com orelhas pontudas, a pele do mesmo cinza que tem a pele dos que morrem afogados e olhos que mais pareciam duas esferas de vidro verdes e opacas.

Ela ria, do jeito que só ri quem sabe que controla a situação. E eu fiquei com medo.

— E você, quem é, anciã?

— Eu sô a véia. A véia já foi uma… fada… se o reizinho-moço faz questão de sabê. Mas já faz tempo, reizinho-moço. Ah, bastante tempo.

— E por que se intromete em assuntos que não te dizem respeito? – a arrogância não me abandonava por muito tempo nessa época.

— A véia só qué ajudá o reizinho-moço… só qué ajudá…

— E por que quer me ajudar, velha?

— Pur que? Purque o reizinho-moço é bunito, ué… – ela gargalhou, com uma malícia de tempos ancestrais.

Deveria ter cedido ao primeiro impulso e dizer que eu era Alan Arunor, rei e senhor de todas aquelas terras e não precisava da ajuda dela nem de ninguém. Mas eu realmente queria aqueles monstros como meus escravos.

— Você sabe como fazer com que eles se comportem?

— A véia sabe sim. Traz um chumacinho do cabelo dele que o reizinho-moço vai vê…

O ogro voltou a se debater, com força total. Os soldados haviam afrouxado a mão na corda e quase voaram. Deu trabalho, mas consegui arrancar um pouco do cabelo. Entreguei-o à velha e ela juntou-o a um punhado de terra. Depois cuspiu na mistura e modelou, na forma rústica de um boneco. Disse algumas palavras, próximo ao que seria a cabeça do boneco e, no instante seguinte, o ogro estava dócil como um cão sentado aos pés do dono à espera de sobras. Fiquei impressionado.

— Esse feitiço dura quanto tempo? – foi a primeira coisa racional que me passou pela cabeça.

— Com esses aí, pode durá pra sempre, reizinho-moço. Se tratá eles bem e num dexá eles com fome, num vão se isforçá nunca pra quebrá a magia. Vão até prifiri ficá assim…

— Isso também funciona com humanos? – perguntei, pensando na cidade depois do mar.

— Funciona não, reizinho-moço. Com gente da sua raça isso só serve pra matá, alejá, ou dexá bem doente. Controlá, num dá pra controlá, não.

— Então é inútil… minha espada mata e aleija mais rápido que qualquer magia. E pra que iria querer deixar alguém doente?

— Nunca si sabe, reizinho-moço. Nunca si sabe…

Deixei o bebê-ogro abandonado à própria sorte e segui pela floresta, acompanhado da velha. Ela parecia se divertir ao controlar os monstros com seus feitiços e não me cobrou nada pelos “serviços” prestados. Dois meses depois, decidi que já havíamos conquistado e pacificado território suficiente. Ofereci à velha uma posição especial entre os magos do reino, mas ela recusou, preferiu ficar na floresta. Voltei ao castelo, com reputação de guerreiro invencível, um exército que me amava e dúzias de trolls e ogros sob meu comando. A prudência me impediu de trazer mais, pois receei que a velha me traísse, quebrando os bonecos de terra e libertando os monstros do feitiço todos de uma vez, quando eles estivessem dentro dos muros da cidade tendo tempo de fazer um bom estrago antes de serem derrotados. Mas isso não aconteceu.

E a força dos trolls e ogros me ajudaram a concretizar planos que mais tarde se revelariam inúteis.

* * *

Minha intenção era construir navios, atravessar o mar e atacar a maldita cidade que assombrava meus pensamentos dia e noite, como um fantasma. Isso demandaria árvores pesadas, e era aí que os ogros entravam. Também aproveitei a força de trabalho adicional para expandir os campos de agricultura e produzir mais comida. Com a barriga cheia, o povo faria de bom grado o que eu pedisse. E eu pedi que confeccionassem velas, amarrassem cordas, lixassem madeira e tudo o mais que era necessário para que minha frota ficasse pronta o quanto antes. Os conselheiros tentaram me dissuadir, mostrando nas páginas douradas do livro dos reis que havia bons motivos para uma cidade litorânea não contar com outros barcos além dos botes de pesca, que quase não saiam da beira do mar. Pelos relatos, a floresta infestada de goblins, ogros e trolls afigurava-se como um jardim de flores e borboletas coloridas quando comparada aos terrores à espreita no oceano. Dragões-marinhos, polvos monstruosos que poderiam enredar uma cidade inteira com seus tentáculos, aboletes, leviatãs e uma infinidade de perigos que, desde o início dos tempos, mostravam que não estavam dispostos a compartilhar seu espaço com os humanos.

— Todos os reis que tentaram navegar, fracassaram, Senhor… – eles me disseram.

— Nenhum deles era Alan Arunor – respondi.

Foram dezesseis anos de trabalho. Durante o período, os orcs, que meu pai combatera durante a maior parte da vida, resolveram atacar, provavelmente motivados pela notícia de que era um rei inexperiente quem agora estava no comando. Sobraram poucos para se arrepender. Entre uma batalha e outra, me casei e tive uma filha. Eliane. Quando a vi, pensei que a amaria. Talvez a tenha amado por um breve instante, ou talvez ainda ouse amá-la até hoje, mesmo depois de tudo que aconteceu, não sei. Mas ali, diante do berço, as palavras do meu pai, dizendo que o amor era a maior de todas as fraquezas, soaram mais alto. E meu coração esfriou.

Demorou, mas os barcos ficaram prontos. Sorri triunfante quando os primeiros navios de reconhecimento ganharam as ondas, com as velas desfraldadas ao vento, ostentando o dragão negro, brasão dos Arunor. Meu sorriso, no entanto, logo se desfez. Antes que diminuíssem muito no horizonte, um redemoinho surgiu num piscar de olhos, e dele brotou um demônio de um milhão de dentes e garras e tentáculos. Nunca soube o que era aquilo, mas, seja o que for, num instante havia três barcos na água e no outro não havia mais nada. Os conselheiros ao meu lado fingiram consternação, mas eu sabia o que de fato se passava em seus pensamentos. Não ousaram dizer uma palavra, mas eu sabia.

Meus planos naufragaram, literalmente, e, pela única vez durante meu reinado, eu não tinha ideia do que fazer. Pensei em construir uma balista para tentar arpoar a criatura, pensei em pular na água sozinho e enfrentar o monstro, em encher um navio com explosivos. Pensei em muitas coisas mirabolantes, mas uma segunda análise sempre trazia o banho gelado dos que percebem que nem tudo no mundo está ao alcance. Estava prestes a enviar uma expedição aos desertos áridos do norte para ver se em algum momento as porções de terra se juntavam. Mas então, o inimigo moveu suas peças, de um jeito tão simples que fiquei me sentindo um completo idiota por não ter pensado naquilo antes.

Eles vieram pelo alto.

* * *

            Poucos dias depois do nosso fracasso náutico, três pequenos pontos apareceram no horizonte e foram se avolumando até que pudéssemos contemplar, incrédulos, os detalhes das máquinas flutuando redondas no ar, deixando um rastro de vapor pelo caminho. Eram apenas mensageiros, pensei, enviados em resposta à nossa tentativa de chegar até eles. Eliane estava ardendo em febre, delirando, acometida por alguma moléstia que veio junto com a primeira regra. Jamais pensei que faria isso, mas preferi ficar ao lado dela a ver pessoalmente a chegada dos visitantes. Enviei meus conselheiros, com a desculpa que não cabia a um rei o papel de receber simples mensageiros, que fossem e só me chamassem caso o próprio senhor daquele povo desconhecido estivesse dentro de uma das máquinas voadoras.

Os conselheiros voltaram, dizendo que eles eram também humanos e só se distinguiam de nós pela estatura mais baixa, os olhos que pareciam fechados embora estivessem abertos e os cabelos: pretos, lisos e brilhavam sob o sol como um véu de seda. Realmente eram apenas mensageiros, que desejavam uma audiência comigo para selar um acordo de não agressão. Lembrei-me das palavras do meu pai a respeito da paz, então ordenei:

— Degolem todos, menos um. Coloquem as cabeças dentro de uma das máquinas e mande esse um que sobrou voltar para além-mar, dizendo que considerei um insulto o próprio líder deles não ter vindo se curvar diante de mim. Peguem as duas máquinas restantes e diga aos nossos magos e engenheiros que façam o que for preciso para descobrir os segredos por trás delas. Nós precisamos voar também, ou estaremos em desvantagem.

Cinco dias depois, incontáveis máquinas voadoras formaram uma colcha que cobria o céu, aproximando-se do meu reino como uma terrível nuvem de tempestade. Eliane já estava melhor e, mesmo que não estivesse, dessa vez eu não poderia ficar. Vesti a armadura de batalha prateada, que foi do meu pai e do meu avô antes dele. Empunhei Língua do Diabo.

E fui à guerra.

* * *

Os inimigos se organizaram com uma rapidez que fez corar meus generais. Trajavam armaduras estranhas, que pareciam feitas de madeira e não de metal, algumas vermelhas, outras amarelas, algumas poucas azuis. Usavam elmos igualmente estranhos e estavam armados com espadas e bastões também estranhos aos nossos olhos. Então, em uma armadura negra como o abismo infinito do inferno, adiantou-se um homem mais alto que os outros, mas ainda assim mais baixo que eu.

— Sou Shigueo Takisumaza, imperador de Nyrzuth. Enviei meus mensageiros para selar um acordo de paz, e o que deste em troca, hum? – ele disse, pronunciando as palavras de um jeito diferente do que pronunciávamos. Então, de um saco que trazia à cintura, tirou uma das cabeças que havíamos decapitado e a atirou na minha direção. – Agora, para que repares semelhante afronta, exijo que te ajoelhes aos meus pés e jures lealdade eterna.

— Acho que, mesmo ajoelhado, eu ainda continuaria maior do que você… – respondi com confiança e meus homens gargalharam.

— Piadas não livrarão, a ti e a teu povo, da completa destruição, caso não cumpras minhas ordens, hum?

— Shigueo Takisumaza, hein? – eu falei, como se me dirigisse a um verme. – Escute uma coisa, Shigueo: meu pai combateu milhares de orcs. Você já viu um orc? São uma montanha de músculo, presas e ferocidade. Já vi alguns deles partindo três homens ao meio com uma única machadada. Meu avô combateu orcs e também drows, os elfos traiçoeiros que vivem debaixo da terra e cortam as gargantas dos soldados depois de fazê-los dormir com sua terrível magia. Tenho até um antepassado que, segundo as lendas, defendeu o reino contra um dragão vermelho ancião. Se quer saber, eu também acho que as lendas são no mínimo exageradas, mas quero que entenda… eu não posso ir para o livro dos reis como aquele que “se ajoelhou para homenzinhos que atravessaram o mar voando em brinquedos de criança”. Por isso, Shigueo Takisumaza, em vez de me ajoelhar, acho que vou cravar minha espada no seu coração mesmo.

Disse isso e investi. Infelizmente, frases de efeito podem até, vez ou outra, servir para intimidar o oponente, elevar o moral das tropas e inflar o próprio ego. Mas não vencem batalhas. E nas três primeiras trocas de espadadas, percebi que aquela era uma lutar perdida. Shigueo era um adversário formidável. Se eu tivesse a agilidade de dez anos antes, aliada à força e explosão muscular que possuía naquele momento, então talvez tivesse uma chance. Talvez. Com um chute, que mais parecia a pancada de um aríete, ele me levou ao chão. Havia ordenado aos soldados para que não interferissem, acontecesse o que acontecesse, mas ali, suando como um porco dentro da armadura, rolando na grama e tateando o chão desesperadamente em busca de Língua do Diabo, desejei que descumprissem minhas ordens. Eles não descumpriram, mas Eliane descumpriu. “Jamais saia do castelo durante uma batalha”, eu disse a ela. Ela saiu, se sob influência dos deuses ou dos demônios jamais saberei, mas saiu – e com isso, salvou minha vida e acabaria participando da salvação de todo o reino mais tarde.

— Por favor, não mate meu pai, por favor… – ela implorou, abraçada ao meu pescoço, como certamente teria vergonha de implorar por si própria.

Shigueo Takisumaza tirou o capacete, e olhou para minha filha como se tivesse acabado de encontrar algo que havia procurado durante a vida inteira. No semblante pálido do meu inimigo, vi o rosto de um homem que acabara de ter consciência que jamais voltaria a ser o mesmo. Meu pai, já embriagado, me alertara uma vez: “todo homem tem um ponto fraco, Alan. Não se engane e lembre-se do ditado: machados até fazem estragos, mas armas de fato perversas as mulheres trazem no meio das pernas!”. Essa arma jamais conseguiu me derrubar, mas eu sabia reconhecer muito bem quando outro homem caía na armadilha.

E não poderia deixar de usar isso a meu favor.

— Aceite minha rendição… – sussurrei, engolindo o orgulho e o sangue que me inundava a boca. – Ofereço minha filha em casamento, como prova de minha boa vontade. Mas, por favor… não me faça ajoelhar. Isso desonraria meus antepassados de um modo irreversível.

Talvez eu tenha escolhido as palavras certas. Talvez Shigueo estivesse encantado demais para raciocinar. Seja como for, ele aceitou meus termos. Apertou minha mão e levou Eliane embora em um dos dirigíveis, que era como chamavam as máquinas voadoras. Ali começava a perdição dele.

E também a minha.

* * *

Os mais ingênuos poderiam dizer que nos anos seguintes prevaleceu a paz. Os dirigíveis iam e vinham, trazendo comerciantes, embaixadores, cobradores de impostos e também inspetores, que supervisionavam e “regulamentavam” meus avanços militares. Shigueo Takisumaza podia ser um homem que se apaixonava fácil, mas estava longe de ser um idiota. O povo de Nyrzuth ia se imiscuindo sem pressa, conquistando-nos e roubando nossa identidade um dia de cada vez. Nossas mulheres olhavam para os homens deles com mais interesse do que olhavam para os nossos, as crianças começavam a brincar com as espadas longas e encurvadas que eles usavam, o sotaque deles já era incorporado ao nosso jeito de falar e alguns mestiços começavam a nascer, aqui e ali. Só meu estômago sabe o quanto me doeu esperar.

Quando meu neto completou três anos, decidi que era hora de agir.

Visitei o palácio do meu genro, na cidade além-mar. Fui recebido com grande festa, pela minha filha, pelo pequeno Kyojiro e até mesmo por Shigueo, que parecia sinceramente feliz em me ver. Ele sorria, com uma alegria com que eu mesmo jamais consegui sorrir. E o invejei um pouco por causa disso. Banquetes foram servidos, apresentações de dança e até mesmo um espetáculo de luzes que explodiam coloridas no céu.

— São de uma beleza que enche a alma, hum? – Shigueo falou, abraçado à esposa e ao filho, com toda felicidade do mundo refletindo-se em seus pequenos olhos puxados.

— São mesmo, Shigueo – concordei, encarando com tristeza o deslumbre que se estampava no rosto de Eliane. – São mesmo…

Retornei no dia seguinte, trazendo comigo um punhado do cabelo da minha filha e também do meu neto.

* * *

A velha da floresta me recebeu como se já soubesse que um dia eu iria voltar para pedir a ajuda dela. Queria ter levado o cabelo de Shigueo, mas a aproximação foi impossível. Estendi as mechas em minha posse em sua direção e ela perguntou, com malícia: “o reizinho-moço tem certeza que é isso mesmo que qué fazê?”. Consenti com a cabeça e observei, com o coração duro, a confecção dos bonecos. Nesses, ela não soprou nada aos ouvidos, mas espalhou um tipo de serragem e também o suco de umas frutinhas vermelhas que trazia em uma sacola de palha.

— Tá feito, reizinho-moço – ela sorriu. – A mais grande vai durá uns quinze dia. A criança pequena, uns dez. É melhor o reizinho-moço corrê…

Os conselheiros e generais ficaram deveras surpresos quando ordenei que se preparassem para um ataque maciço. Preocuparam-se, com boa dose de razão, sobre como seria dado esse ataque, visto que os “inspetores” de Nyrzuth impediram que produzíssemos dirigíveis em larga escala. Ficaram ainda mais aturdidos quando ouviram minha resposta.

— Nós vamos com os navios.

— Mas, o senhor viu o que acontece quando se tenta atravessar o mar…

— Dividiremos nossas frotas em cinco partes iguais, e velejaremos o mais depressa possível, rezando para que não haja tantos monstros marinhos ocupando o mesmo espaço do oceano. Se dois comboios conseguirem chegar do outro lado, teremos alguma chance.

Eu já não gozava da mesma reputação que possuía antes dos malditos dirigíveis pousarem em minhas terras, mas ainda era o rei e ainda era o mais mortal entre os guerreiros desse lado do mar e, mesmo terrivelmente contrariados, eles me obedeceram.

Partimos à socapa na madrugada seguinte: cinco frotas de quinze navios cada. Cada navio levando duzentos soldados e a esperança de liberdade do nosso povo. A minha esperança, pelo menos. Seguimos rotas paralelas, a uma boa distância uns dos outros. Não bastasse o negrume da noite, o mar também estava coberto por um véu de neblina densa e quase não era possível ver os navios navegando ao lado na própria frota.

Não ouvi gritos dos marinheiros, nem cascos se partindo, nem urros bestiais de monstros marinhos. Mas trinta navios desapareceram naquela noite. Porém, três frotas conseguiram chegar do outro lado e considerei isso um enorme sucesso, principalmente porque estava numa delas. Desatracamos junto aos primeiros raios de sol da manhã. Chegando de um modo que os inimigos jamais esperavam e camuflados pela neblina que ainda esbranquiçava o mundo, conseguimos um ótimo efeito surpresa e, antes que pudessem soar os gongos de alarme, já tínhamos parte da capital sob nosso controle. As tropas se equivaliam em poder e com a vantagem inicial, a batalha se encaminhava para o nosso lado. Apenas um herói do lado inimigo poderia mudar os rumos do combate.

E fui me encarregar de que esse herói não aparecesse.

Os bardos cantam canções e declamam versos exagerados sobre minha luta derradeira com Shigueo Takisumaza. Dizem que demorou três dias e três noites, que a terra foi sacudida por terremotos e até os anjos do céu e os demônios do inferno declararam trégua para poder assistir ao embate. Não aconteceu nada disso. Entrei nos aposentos dele, deixando uma trilha de cadáveres de olhos puxados para trás, e me deparei com a tétrica cena de um homem insone segurando a mão da esposa e do filho à beira da morte. O corpo do meu neto, assim como o de Eliane, estava coberto por feridas purulentas, eclodindo na pele como se a alma fervesse por dentro e quisesse fugir. Eles gemiam um gemido terrível, agonizante, imbuído da mais profunda dor. Eu quase me comovi, quase me detive e desisti de tudo, quase peguei o primeiro dirigível para ir à floresta implorar à velha que quebrasse o feitiço.

Quase.

Parti Shigueo em dois com um golpe de misericórdia de Língua do Diabo. Matei um inimigo já morto. Depois, me aproximei de Eliane e a poupei do sofrimento. Não tive coragem de olhar em seus olhos. Meu neto, que se parecia mais com Shigueo do que comigo, eu deixei queimar, junto ao castelo. Os homens de Nyrzuth se renderam, imploraram por misericórdia. Apinhei-os num dos meus barcos e permiti que fugissem pelo mar. Mas os leviatãs não foram generosos com eles. Disse aos meus soldados que fizessem o que bem entendessem com as mulheres e depois as degolassem, junto às crianças e velhos.

Tiramos os dirigíveis e depois transformamos a cidade de Nyrzuth numa grande pira. Voltamos para casa, navegando nas ondas seguras das nuvens. Ao chegar, acabei com todos os embaixadores e visitantes que lá estavam, com as crianças mestiças e com as mulheres que ousaram abrir as pernas para aqueles miseráveis. Liquidei todos os vestígios do inimigo. E o povo voltou a me amar como amava antes.

A velha gargalhou em algum lugar da floresta.

E os demônios gargalharam no inferno, onde meu lugar estava guardado.

* * *

Um dia, meu pai me disse: “proteja o reino, mesmo que isso custe a sua alma”.

Eu fiz isso, seu velho desgraçado.

Eu fiz isso.

____________________________

Deixe uma resposta