[Conto] Mil Pedaços de um Coração Tatuado à Nanquim

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Abro a cortina, com imprudente celeridade. O Sol, espreitando lá fora desde horas há muito não visitadas por meus ponteiros, com fótons mordazes trespassa córneas, retinas, pupilas e cristalinos, numa explosão cega que faz meu semblante contorcer-se num emaranhado de rugas, sobrancelhas amassadas e olhos espremidos até adquirir vislumbres de máscara de Pierrô em Quarta-feira de cinzas.

Domingo de primavera, desses que até nos levam a crer, bobamente, que a felicidade é um estado natural; geram sorrisos mais espontâneos que espinhas em rostos adolescentes; impelem idosos a buscar sombra e novos mexericos no frescor do terraço; lotam piscinas públicas com uma profusão de maiôs, sungas, urina, cloro, corpos fora de forma e frieiras; atulham os shoppings de gente buscando o refúgio artificial das luzes de led, do ar condicionado, das filas de cinema e mensagens de celular, das novas coisas indispensáveis que nunca fizeram a menor falta; entopem estradas, alamedas, trilhas, ruas, becos, avenidas, vielas ou quaisquer outras vias que à praia conduzam. Ah, a praia! Eu gosto da praia. Gosto do amontoado orgânico de cadeiras e guarda-sóis que se espalha, numa miríade de padrões mesmerizantes, pela areia que voa ao gosto do vento como a matéria-prima dos sonhos, das estrelas que brilham em outros céus e das nebulosas que desdenham de nossa pequenez nos confins do espaço-tempo, por detrás dos sóis gêmeos que afundam sob o lago enquanto as sombras dos pecados dos homens alongam-se em Carcosa.

Sim, eu gosto da praia.

Mas não hoje.

Hoje o mar está distante. E lá fora a vida apresenta-se jovial, agradável, com uma ameaça velada de urgência que nos obriga a tentar pegar tão somente o que já estiver ao alcance da mão. Trata-se de mais um embuste dessa velha traiçoeira, bem sei! Mas deixo-me enganar. Ah, sim! Em verdade vos digo – eu quero ser enganado! Anseio por isso de todo coração, com todo resquício de força que ainda ostenta a honradez, ou quiçá a loucura, de dar as caras em minha alma. Assim, atendo ao convite da janela, em um ímpeto dourado tão repentino quanto bem-vindo de sair à rua, caminhar, provar uma vez mais a ardência do Sol avermelhando a palidez da minha reclusão, do meu “estar-se preso por (falta de) vontade”. Abandonar, mesmo que por instantes efêmeros, o mofo das caixas que se empilham preguiçosas no velho apartamento e em fino papelão embalam discos, livros, retratos, pôsteres, honras, promessas, lembranças, histórias e o pouco da saudade indecentemente bela que resistiu, mais por teimosia que por bravura, ao rigor lancinante do inverno.

Aceno um burocrático “até logo”, às paredes e seu silêncio ensurdecedor, ao prato que solitário jaz à mesa, ao sândalo destilando seu torpor, às aranhas que em cantos escuros tecem fios de tristeza. Palavras vãs que no vasto mundo de minha mente – onde agora até o velho diabo parece negar-se a vir prestar seu ofício – anseiam ser solução, mas são (quando muito) apenas rima.

Saio de casa, sentindo-me urso parido pela caverna após hibernar. O ímpeto dourado enferruja antes que meus pés encontrem pela segunda vez o chão ladrilhado da calçada. Tudo parecia tão melhor quando visto da janela! Já não quero mais ser enganado porcaria nenhuma, já sinto falta do cheiro de mofo e papelão empoeirado, mas insisto, vou até o parque. Ao adentrar o portão principal e constatar o tanto de gente que compartilhou da mesma ideia, penso em voltar. Mas continuo insistindo. Sou cercado por crianças – elas brincam entre si com a inocência maldosa que só quem ainda não provou dos dissabores do mundo pode brincar. Posso sentir suas risadas reverberando em meu espírito, mas não me alegro. Sigo em frente e, sem perceber, acabo mergulhando no mar de atletas de fim de semana, bicicletas rangendo correntes apressadas, maratonistas amadores, triciclos, casais enamorados insultando a amargura alheia com a euforia da paixão recente, árvores velhas com suas folhas secas e raízes eclodindo ranzinzas no cimento, vendedores ambulantes, fragmentos de conversa, cata-ventos e balões em formato de personagens que desconheço, capoeiristas e seus onomatopeicos berimbaus, gritos na quadra de vôlei, jogos de futebol, bolas de basquete, cães esbaforidos, estátuas, pombos, pardais, patins, pipas, carrinhos de bebê, skates deixando rastros de madeira esfarelada no chão.

Tudo parece banhado por uma demão aguada de nanquim.

Tão insosso.

Completo uma volta. Dois quilômetros e meio. Deve ser mais do que caminhei nos últimos dois anos. Estou surpreso (e um pouco decepcionado) por não ter esbarrado em ninguém. Ainda mais surpreso (e confesso que ainda mais decepcionado) por não ter presenciado nenhum acidente na ciclo-faixa – andar por ali me pareceu tão seguro quanto um piquenique na Faixa de Gaza. Boca seca. Encosto aleatoriamente em uma dessas barraquinhas que vendem água de coco, salgadinhos, conservantes com aroma de laranja e bugigangas afins. Aguardo minha vez de ser atendido, distraindo-me com glúteos e bustos hermeticamente embalados em lycra que transitam fluorescentes pela pista de atletismo. Então – num daqueles eventos que nos deixam com a pulga atrás da orelha, refletindo se é tudo uma grande coincidência ou se existe um titeriteiro brincalhão zombando de nós no alto das nuvens – alguém resolve parar na mesma fila que eu. E minha vida muda.

— Oi… tá na fila, moço?

Sua pele é ébano nobre, seus dentes pérolas perfeitas confinadas num baú de tesouro que jamais será encontrado por pirata ou Peter Pan, seus lábios fazem inveja a incontáveis Iracemas e seus olhos… ah, meu Deus, seus olhos! Eles escondem todos os segredos sussurrados, todos os sonhos sonhados e todas as juras de amor proferidas desde a criação do universo. Seus ouvidos não deveriam ser incomodados com nada menos doce que as liras que tocaram os querubins ao receber as tropas celestes entrando triunfantes pelos portões de safira após a batalha do cipreste branco.

— Oi… é… estou esperando faz um tempinho. Na verdade está demorando tanto que estou desconfiado que foram plantar o coqueiro… – arrisco uma piada, já me sentindo um completo idiota antes de terminar a frase.

Minha voz definitivamente não deve sequer assemelhar-se à lira de anjo algum, mesmo com a mais desafinada delas. Mas ela ri. E o mundo fica colorido.

— Ai, final de semana é terrível, né? Parece que todo mundo resolve vir pra cá, é impressionante! – Para minha surpresa, ela dá andamento à conversa.

— As pessoas no Shopping devem estar pensando a mesma coisa agora mesmo.

— É verdade! – Concorda, abrindo um sorriso mais largo e, certamente contrariando alguma lei fundamental da física, ainda mais bonito. – Acho que tem é gente demais nessa cidade, né?

— Dez milhões de solitários, cercados de estranhos por todos os lados… – as palavras escapam da boca involuntariamente e meu rosto queima em brasa. – Putz, não faço a menor ideia do porquê de ter falado isso… quero dizer, até faço, mas não era pra falar. Digo, não que eu queira esconder algo, é que… bom, acho que já me enrolei o suficiente, melhor parar, né?

— Você parece ser engraçado… – ela lança-me um olhar, que ouso classificar como “interessado”.

— Engraçado tipo “tonto”, ou engraçado tipo “legal”?

— Engraçado tipo… “engraçado” – ela dá uma gargalhada encantadoramente boba, parecida com soluço, mas que ao meu coração soa tipo: “desfibrilador”.

Pegamos as garrafinhas e antes de nos darmos conta estamos caminhando juntos, falando sobre relacionamentos traumatizantes, amor, Deus, almas gêmeas, furacões, montanhas-russas, músicas de elevador, sentido da vida, medo da morte e outras coisas igualmente sem importância. Contemplo árvores farfalhando num verde exuberante, abelhas beijando as flores com o fulgor de amantes saudosos, o Sol transformando-se em prata líquida ao refletir-se no lago atulhado de patos e cisnes que grasnam ritmados. Sinto uma leve brisa acariciar meu rosto, trazendo consigo o cheiro adocicado das bromélias que ladeiam a trilha. Tudo é tão bonito, tão perfeito. Mesmo os arrulhos dos pombos, que em dias acinzentados chegam aos ouvidos quase como juras de maldição, agora parecem entoar a cândida melodia da mais bela entre todas as canções do mundo.

Duas voltas depois, estou encharcado de suor. E completamente apaixonado. Tão apaixonado que sequer sinto câimbras (as tais endorfinas são mesmo milagrosas). Não faço a menor ideia de como sobrevivi até então, sem a companhia dessa garota de pele morena com quem sonhei há tanto, tanto tempo. Na despedida, ela anota o telefone num guardanapo e me entrega, junto a mais um olhar interessado e um “me liga”. Coloco-me a caminho de casa, me sentindo menino que ganha beijo em porta de escola, segurando o número como se fosse bilhete de loteria premiado. Mas então, ao cruzar o portão principal, lembro-me da minha vida embalada em fino papelão no velho apartamento.

E uma nova aguada de nanquim é pincelada sobre a paisagem.

Entristeço-me, com a sensação de ser o cão que, picado por cobra, passa a ter medo até de linguiça. Todavia, logo um sorriso sorrateiro, do passarinho que antevê o perigo e bate asas antes de pisar na arapuca, escapa-me ao canto da boca.

Ah, vida! Sua traiçoeira incorrigível! Um dia desses, num desses encontros casuais, talvez volte a me enganar, talvez pegue os mil pedaços do meu coração e parta-os em mil outros mais. Talvez você ainda volte a tatuar seus desmandos, caprichos e devaneios em minha alma. Talvez. Provavelmente. Quem sabe. Um dia…

Mas não hoje.

Amasso o guardanapo e atiro-o à primeira lixeira.

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