[Conto] O Sentido da Vida

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Faz 385 bilhões de anos, mas parece que foi ontem.

Queria assistir ao filme que meus amigos viviam comentando, sobre o cara que pilotava naves espaciais, lutava com sabres de luz e salvava todo o universo. Num sábado qualquer, falei tanto sobre isso que ao meu pai não restou saída além de separar um punhado de suas escassas horas de folga e me levar ao cinema. A decisão foi tão inesperada quanto abrupta:

— Pega o jornal e vê o horário. Se a sessão acabar antes das dez, dá pra gente ir.

Havia uma sessão, mas precisaríamos sair em cinco minutos. Fiquei pronto em três. Caminhando em direção ao ponto, meu velho, que já tinha “nascido pronto”, gargalhou ao notar que a afobação me fizera colocar a camisa do avesso. Pouco depois, senti o tênis afrouxar e antes que o cadarço tivesse chance de se separar por completo, veio a ordem de amarrá-lo direito para não “tropeçar e cair de cara no meio da rua”. A ansiedade da oportunidade rara foi somada ao nervosismo, que sempre espumava gelado nas veias quando precisava realizar mesmo a mais banal das tarefas sob o olhar de avaliação paterno. O resultado foi que aqueles laços demoraram a se atar. Então, o ônibus para o centro passou do outro lado da rua, desdenhando das minhas pretensões.

E eu nunca veria Luke Skywalker tornar-se cavaleiro Jedi na tela grande.

A decepção inundou-me o semblante, feito os dilúvios que costumavam cair nas tardes de Fevereiro. Meu pai bagunçou meu cabelo e perguntou se eu queria sorvete. Respondi que sim, emburrado. Porém já sorria novamente quando chegamos à praça e nos juntamos à pequena multidão cercando o homem de boné engraçado, que transformava o líquido das garrafas coloridas em massa gelada com gosto de inocência. Quis de uva. Meu pai, abacaxi. Recebi um pouco de abacate, que era o que a moça à nossa frente havia pedido e ele pegou um pouco da uva que era minha. Provar o sabor que não se pediu fazia parte da mágica – e eu demorei um bocado para entender isso. Na hora só torci o nariz, porque abacate era bem o que eu menos gostava. Tomamos assento improvisado no tronco de uma árvore desafortunada e observamos o céu, quietos por instantes infinitos. A noite estava salpicada de promessas cintilantes, tão bonitas e puras como só um garoto de nove anos consegue enxergar.

— Cuidado ao olhar as estrelas, filho…

Virei-me, surpreso com o conselho inesperado que quebrara o silêncio e vi toda felicidade do mundo refletida nos olhos do meu pai. Com a boca cheia de sorvete, perguntei:

— Por quê?

— Por quê? – ele sorriu com ternura. – Porque se seus pensamentos perderem-se nelas… jamais conseguirão voltar.

Essa foi outra coisa que custei a compreender. Na ocasião, limitei-me a concordar com a cabeça, enquanto mastigava o que sobrou da casquinha. Não sabia que o conselho do meu pai chegara atrasado, que meus pensamentos já estavam imiscuídos ao cosmos e que eu não seria mais o mesmo, nem se quisesse.

— Qual é o sentido da vida? – questionei de supetão, fazendo meu velho rir, menos por graça que por espanto com a pergunta que não se espera ouvir da boca de uma criança.

— Quem pode saber? – ele disse, encolhendo os ombros, depois de encarar o céu por mais alguns instantes. – Se é que existe uma resposta certa para isso, acho que ninguém a conhecerá. Pelo menos, não até que a última estrela se apague

Foi minha vez de sorrir. Estava com a mão toda grudenta de sorvete, ao lado do meu super-herói favorito de todos os tempos, conversando sobre os segredos da vida e do universo. Pensei que jamais ficaria tão empolgado novamente.

Estava errado. Pelo menos quanto à intensidade da empolgação. Porque num dia você é garoto, balançando as pernas enquanto toma sorvete com o pai, e no outro é adolescente, com os olhos grudados na colega de cabelo encaracolado que senta lá na frente e responde todas as perguntas da professora. Laura. A menina mais linda do mundo, do sistema solar, da Via Láctea e de todas as outras galáxias que possam existir. Depois de muito ensaiar, tomei coragem e convidei-a para um sorvete. Ela tomou abacate com resquícios de groselha, e eu, uva com comecinho de abacate. Achei meio irônico ela ter pedido logo esse sabor, mas não liguei. Foi o primeiro, o mais gelado e também o mais doce beijo da minha vida. Namoramos intensa e desesperadamente, como só se pode fazer aos quinze anos. Certa vez, em meio às juras de amor exageradas, perguntei a ela:

— Qual é o sentido da vida?

— Da minha… é você. – Laura falou, como se já estivesse com a resposta na ponta da língua antes mesmo de ouvir a pergunta, arrancando-me um sorriso que ofuscaria uma supernova.

Uma semana depois, veio à minha carteira e lançou-me um pedido de desculpas em forma de olhar. Deixou-me uma carta. Dois parágrafos escritos com caneta colorida que deixava cheirinho bom no papel. Dois parágrafos que partiram meu coração em tantas partes que eu jamais pude juntar de novo. Pensei que não conseguiria amar nunca mais. Novamente estava errado. Bom, na verdade, estava certo. Porque amar, eu amei – Luanas, Lilians, Lucianas, Larissas. Mas nenhuma outra Laura. Amores doces, agridoces e amargos. Esses vêm e vão. Mas o amor inocente, despido de qualquer medo ou mácula, o amor insano e brutal que nos faz pular do trampolim antes de ver se tem água na piscina, esse é só uma vez. Seja como for, acabei me casando, com a mulher mais divertida que já tive a honra de conhecer. Regiane. Impossível não se animar com ela por perto.

Do dia do casamento, mais que do bolo, do champanhe e da festa, eu me lembro dos olhos do meu pai, transbordando orgulho por detrás das grossas lentes que refletiam o teto da igreja. Ele segurou meu rosto e disse: “Eu te amo, filho… até a última estrela se apagar. Eu te amo…”. Abraçamo-nos por uma eternidade. Então ele colocou algo no bolso do meu paletó e me sussurrou ao ouvido:

— Desculpe não ter te levado ao cinema, desculpe ter trabalhado tanto. Eu queria… queria poder viver tudo de novo, filho. Queria poder viver… mais.

— Tá tudo bem, pai. Você ainda vai viver bastante, uns cem anos no mínimo!

Nós rimos.

— Mesmo que viva duzentos… nunca será suficiente.

Essa foi outra coisa que não entendi de imediato. Beijei-o na testa e baguncei seu cabelo grisalho. Descendo as escadas cobertas de grãos de arroz, puxei o papel. Era um desenho do Han Solo e do Chewbacca (que mais parecia um boneco playmobil ao lado de um cachorro cocker gigante) que eu nem me lembrava de ter feito. Olhei para trás e ele estava lá, me vigiando com carinho, como sempre fez.

Foi a última vez que vi a luz da vida brilhar em seu rosto.

Porque num dia você está em Lua de Mel, tomando Piña-Colada à beira da piscina, daí o telefone toca, e, no outro, está no velório do seu herói. O herói teimoso demais para ir ao médico ver porque as costas doíam tanto. Só voltei a sorrir com gosto três anos depois, quando minha filha nasceu. Sophia. Tão pequena, tão inocente. Ela me fez viver os melhores anos que alguém poderia desejar e ser feliz de um jeito que não sei se merecia ser.

Certa vez, levei-a para tomar sorvete, na mesma praça que meu pai me levara anos atrás. Disse para que escolhesse primeiro e não pude deixar de rir quando ela falou “abacate”. Nós observamos as estrelas e compreendi finalmente, na mais bela das epifanias, o que era o amor em seu estado mais puro. Olhando o céu, podia jurar ter visto os olhos de Deus por um instante e de todo coração eu disse: “obrigado”. Tive a certeza redundantemente absoluta que aquele momento iluminaria minha alma pelo resto dos dias e a tristeza jamais voltaria a se abater sobre mim.

Mas a vida tem o péssimo hábito de destruir sadicamente nossas convicções.

Quando você acha que tudo está bem e ficará assim para sempre, um cara de branco abre um envelope na sua frente e diz que infelizmente sua princesa não viverá o bastante para se tornar astronauta e descobrir se existem homenzinhos verdes em Marte. E você não pode fazer nada além de chorar e se perguntar em silêncio se o sentido da vida é ficar subindo e descendo nessa montanha-russa de alegria e tristeza, onde dor e perda, mesmo que em longo prazo, parecem ser o desfecho inexorável de toda e qualquer felicidade.

Sophia morreu numa quarta-feira e tive certeza que aquele seria o dia mais triste da minha vida, não importava o quanto vivesse depois. Dessa vez eu estava certo. Regiane definhou como se ela própria tivesse passado pelas sessões de quimioterapia. Depois do enterro foi tentar recuperar a vontade de viver, ou ao menos parte da sanidade, nas areias quentes da Austrália, longe de mim e de tudo que pudesse lembrá-la dos dias de bicicleta e algodão-doce que passamos com nosso anjo de olhos castanhos.

* * *

Queria dizer que foi por altruísmo, para ajudar a humanidade e evitar que outros pais sentissem a mesma dor. Mas estaria mentindo. Não foi por nada disso. Não foi por nada que eu saiba explicar. Talvez tenha sido para trilhar um caminho que não fosse o da janela do apartamento vazio até a calçada. Não sei. Simplesmente foi. Peguei o folheto que um dos médicos me deu no hospital e fui ver do que se tratava. Uma empresa farmacêutica precisava de voluntários (cobaias humanas) para testar efeitos de uma nova droga de “combate ao câncer”. Não sei se a ideia original era realmente essa, mas eles acabaram conseguindo algo muito maior. E muito mais lucrativo.

Eles descobriram a fonte da juventude.

Fui um dos primeiros organismos a aceitar bem a droga, sem vomitar as tripas nem desenvolver esquizofrenia ou síndrome de perseguição. Isso sempre me deixou na vanguarda das novas atualizações do remédio milagroso e soprei as velas de cem anos aparentando pouco mais de quarenta. Descobri que, de fato, com o tempo todas as feridas são cicatrizadas. E curiosamente fiquei mal ao constatar isso, pois era como se estivesse sendo injusto com meu pai. Injusto com Sophia. Ao deixar de sentir dor, parecia que meu amor por eles não era tão grande quanto deveria ser. Seja como for, aos duzentos já não eram muitos os sentimentos que pulsavam em meu coração, nem para o bem, nem para o mal. Uma existência insossa.

Mas as estrelas ainda brilhavam no céu e eu continuei.

Imaginei que com a popularização da nova expectativa de vida a humanidade mergulharia no mais profundo dos infernos de futilidade e degradação. Mas, para minha surpresa, não foi o que aconteceu. As taxas de natalidade despencaram, enquanto os índices de suicídio subiram mais que as ações da empresa que fabricava o coquetel de substâncias com nome científico maior que meu antebraço que ficou conhecido como “pílula da eternidade”. Mas os que restaram lograram êxito, pela primeira vez na história, em trabalhar por um bem comum ao mundo. Assim desenvolvemos escudos anti-meteoros e acompanhamos juntos as naves pousarem em Europa. E nos decepcionamos juntos quando essas naves perfuraram o gelo e não encontraram nada além de água no oceano interno daquela lua. Nenhum sinal de vida. Nem ali e, mais tarde constataríamos, em nenhum outro lugar.

Aperfeiçoamos o projeto HAARP e conseguimos atravessar o longo inverno trazido pela era glacial. Mineramos Vênus e Marte para extrair matéria-prima necessária à construção do hiperacelerador de partículas que circundava todo o sistema solar e também HAL-9001, o supercomputador com tamanho de Ceres e trilhares de vezes mais poder de processamento que a soma de todas as máquinas construídas até então. Os nano-robôs demoraram 278 milhões de anos para concluir o trabalho e a humanidade se revezou em turnos de vigília e criogenia, aguardando o resultado. Quando despertei, vi HAL-9001 cintilando prateado nos céus, imponente, assustadoramente belo. A expressão máxima da engenhosidade humana. Foi a última coisa que me impressionou de verdade.

Perguntaram a ele se a entropia poderia ser revertida. HAL respondeu que ainda não possuía dados suficientes para dar essa resposta. Eu teria perguntado qual é o sentido da vida, mas não o fiz. Menos por falta de oportunidade que por medo da resposta.

Com os novos brinquedos, esmiuçamos táquions e grávitons. HAL estimou em uma para 10^382 a possibilidade de conseguirmos controlá-los. Lutamos contra as probabilidades por dez mil anos. Depois desistimos e nos concentramos em gerar energia escura, o combustível perfeito, essencial para a fuga que precisaríamos fazer quando o Sol explodisse, ou quando Andrômeda chegasse perto demais.

Vi naves explodindo no cinturão de Órion e feixes de energia C brilhando próximos aos portões de Tannhäuser. Vi essas e muitas outras coisas, enquanto éons passavam e a raça humana migrava de planeta em planeta, esquivando-se dos caprichos de um universo indiferente. As constelações foram se apagando, uma a uma. Até não haver mais para onde fugir. Até não haver mais motivo para continuar. Depois que Sophia se foi, para mim nunca houve. Mas, o que meu pai falou… o sentido da vida…

Eu precisava saber.

Faz 385 bilhões de anos, mas parece que foi ontem.

Pelo vidro da nave acompanho o suspiro agonizante da anã-vermelha Sirius-919, a última das estrelas. Conservando nada ou, na melhor das hipóteses, muito pouco do que um dia já foi considerado humano, eu aguardo. Enquanto a luz do universo se apaga, eu penso no meu pai. Penso em Regiane e na mãe que não conheci. Tento evitar, mas acabo pensando até na Laura e naquela bendita carta escrita com caneta colorida.

E eu penso em Sophia…

Então, quando tudo se torna um irremediável mar gelado de partículas e carcaças de planetas vagando a esmo, eu entendo. Na mais profunda escuridão, eu vejo o sentido da vida.

Ele é e sempre foi um sorvete de uva.

Misturado com um pouco de abacate.

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