[Conto] Paladino

paladino

O coração dos homens pode ser facilmente corrompido – a sede de poder lhes obscurece a visão, consome e envenena seus pensamentos, é motivo de guerra, dor e destruição. Luxúria, ganância e vaidade são as armas utilizadas pelo inimigo para arrebatar a alma dos incautos. O mundo está se consumindo em maldade e degeneração, os fortes cada vez mais exploram e oprimem os fracos, vilarejos definham, aldeões passam fome, enquanto nobres banqueteiam. Criaturas malignas proliferam-se nas florestas, atacando inocentes, pois o exército que deveria combatê-las está ocupado demais na luta por expansão de território, na busca por mais e mais poder para aquele que deveriam se envergonhar em chamar de rei. Um desespero crescente vai tomando conta das pessoas. Eu contemplo, sinto e me consterno com essa situação, em todos os lugares por onde passo.

Mas isso vai mudar. Isso precisa mudar. Essa é a minha missão – combater o mal onde quer que ele esteja, ser a esperança dourada que surge junto aos primeiros raios de sol. Ser aquele que atende pelo clamor desesperado por justiça que parte do coração dos desfavorecidos, ser a espada, o escudo e a fortaleza daqueles que não têm condições de lutar. Eu sou um paladino, um dos poucos que restaram nessas terras esquecidas. E eu vou mudar esse mundo, ou morrer tentando. Para lograr êxito em tal contenda, preciso encontrar os onze artefatos lendários que me darão poder o suficiente para enfrentar as forças do feiticeiro tirano, que hoje ocupa o castelo e macula a coroa que já pertenceu a grandes heróis. E eu os encontrarei, mesmo que seja necessário descer até as profundezas do último círculo infernal. Peço a Deus que me auxilie nessa busca e poupe os inocentes do sofrimento. Peço também que me dê sabedoria e força, para que meu coração não se corrompa quando obtiver tal poder. Afinal, sou apenas um homem.

Os primeiros pingos de uma tempestade começam a estalar em minha armadura prateada. A estrada fica escura e enlameada, mas minha fiel montaria segue seu incansável galope. Tenho a sensação de que um grande mal nos espreita, quando um raio ilumina as trevas, revelando um vulto humano correndo pela estrada, um pouco a nossa frente. Sem necessidade de qualquer tipo de comando, meu cavalo acelera a marcha e logo o alcançamos. É uma mulher. Ela empunha uma adaga e seu semblante é moldado por puro ódio e terror.

— O que a aflige, donzela? Aonde vais com tanta pressa, em meio à tempestade, empunhando uma adaga com tanto rancor?

— Estou indo resgatar meu filho, que foi sequestrado por uma bruxa e agora é prisioneiro, no alto daquela montanha.

— Tens alguma experiência em batalha, minha senhora? Como pretendes subir a montanha e enfrentar a tal bruxa sozinha?

— Não, cavaleiro, sou apenas uma camponesa, sei somente ordenhar, cozinhar e cerzir, não conheço nada da arte da espada. Porém, meu filho está lá e eu tenho que fazer alguma coisa, ou… morrer tentando. Os homens do meu vilarejo não quiseram me ajudar, disseram que ele está escondido em algum lugar e logo aparecerá, como sempre faz nos dias que precedem seu aniversário. Mas no fundo, eles sabem que estou certa, sabem que foi a bruxa. Não querem me ajudar porque são beberrões covardes. Se meu marido ainda estivesse vivo…

— Quando teu filho foi sequestrado? Como sabes que foi levado para lá? Tu viste a bruxa que dizes habitar o alto da montanha?

— Há duas semanas percebemos uma estranha movimentação na caverna incrustada no alto da colina. Fogo, sombras, um cheiro pestilento. Nossos animais ficaram inquietos, as duas camponesas que estavam grávidas perderam seus bebês, o leite azedou, as plantações murcharam, as labaredas de nossas fogueiras ficaram azuis. E todos sabem que esses são sinais da presença de uma feiticeira. Não a vi, mas sonhei com o sequestro, com os lacaios da maldita arrastando meu garoto para o covil. Um sonho muito real, certamente um presságio. Sei que ele está lá e sei que ainda está vivo.

— Há verdade em tuas palavras e nobreza em tua causa. E também posso sentir uma presença extremamente maligna no alto daquela montanha. Não sei se é a bruxa, mas vou até lá descobrir. Quis Deus que nossos caminhos se cruzassem e tenho certeza de que isso não foi por acaso. Acalme-se e volte para casa. Amanhã trarei o garoto de volta a teus braços, tens a minha palavra.

— É muita nobreza de sua parte, cavaleiro, mas o que está esperando em troca? Adianto que não tenho nenhum ouro. Só posso lhe oferecer meu corpo, que ainda guarda resquícios de beleza… era isso que estava insinuando quando falou sobre caminhos cruzados, não? Senão interessar, deixe que eu continue minha busca sozinha, já perdi tempo demais com essa conversa.

— Tu me ofendes assim, mulher. Não estou interessado em ouro, tampouco no corpo de uma viúva, desesperada pelo sumiço do filho. Sei que é difícil acreditar, mas ainda existe bondade altruísta nesse mundo sórdido. Agora vá para casa e aguarde. Vigiai e orai. Nunca perca a fé.

Cubro o rosto com meu elmo e disparo cavalgando em direção à montanha. A mata é densa, dificulta a progressão da montaria. Qualquer outro cavalo não conseguiria avançar, mas esse é um cavalo de guerra pesado dos paladinos, um animal sagrado, que desconhece o medo e praticamente ignora os terrenos difíceis. Sinto a presença maligna aumentando a cada passo que damos na direção da caverna – é uma aura muito poderosa, receio que não se trata de uma simples feiticeira. Percebo uma movimentação nas árvores ao meu redor, notadamente não são animais comuns, mas provavelmente os lacaios do ser maligno. Haverá combate, posso pressentir. Vestindo armadura pesada, estarei em desvantagem lutando na mata fechada, então acelero o ritmo, tentando chegar logo à pequena planície que se estende aos pés da montanha. Os raios começam a revelar vultos monstruosos caminhando entre as folhas, aproximando-se cada vez mais. Então, silvos destacam-se em meio aos barulhos da tempestade, gerado por boleadeiras lançadas no intuito de derrubar meu cavalo. Elas atingem o alvo, todavia, suas patas são mais fortes do que os inimigos imaginam. Uma lança bate no meu ombro esquerdo, com força para me desequilibrar, mas não para perfurar minha armadura. Penso em parar e lutar ali mesmo, antes que um desses arremessos tenha mais sucesso e acabe sendo fatal, mas a planície finalmente chega e agora posso combater livremente.

Desembainho minha espada, a Sagrada Vingadora, aquela que traz morte rápida àqueles que se opõem à justiça, e aguardo os inimigos – eles não tardam a se revelar, saindo da floresta emitindo grunhidos selvagens, na tentativa de me intimidar. Porém, outro raio cai, a luz reverbera em meu escudo, mostrando a cruz escarlate, mostrando cavaleiro e montaria, ambos revestidos em armadura prateada, revelando todo o esplendor sagrado. Eles que acabam intimidados, pela visão de um senhor da guerra honrado lutando pelo bem e pela justiça. E a intimidação se transforma em terror, quando tomo a iniciativa do combate, lançando-me numa investida poderosa. Cavalo, espada, cavaleiro e escudo – tudo se torna uma coisa só, uma arma mortal que derruba três inimigos no primeiro ataque. Eles pensam em fugir, seus olhos cruéis transparecem o medo que agora está instaurado em seus corações. Porém, o medo do castigo por covardia que podem receber de seja lá quem os esteja comandando é maior, então desistem de fugir e resolvem lutar.

São trolls da floresta, cerca de dez deles. Criaturas perversas, com quase o dobro do tamanho e o triplo da força de um homem. Pouco inteligentes, mas determinados e extremamente perigosos em batalha. E agora eles se lançam com fúria em minha direção, com machados, clavas e dentes à mostra. Tenho que aproveitar o fato de que são desorganizados, não posso deixar que me cerquem – cavalgo lateralmente, avançando sobre um deles. Desfiro uma espadada certeira em seu pescoço, fazendo-o cair no chão tentando inutilmente conter o sangramento com as garras. As feridas desses monstros cicatrizam depressa, mas não o suficiente para evitar a morte após um golpe dessa natureza. Continuo com a estratégia e derrubo mais quatro da mesma forma. Porém, o chão rochoso não é o mais propício para um cavalo correr, mesmo um cavalo como o meu, e após receber um violento ataque de machado que o teria partido em dois não fosse a armadura, minha montaria se desequilibra, prende a pata nas pedras e cai, obrigando-me a desmontar. Os cinco monstros restantes sentem a oportunidade e avançam, sedentos pelo meu sangue.

Não tenho medo. Tenho fé. Fé, uma espada e um escudo – e isso me é suficiente. Penso em colocar em prática todas as técnicas de combate que aprendi durante a vida, mas algumas batalhas não se vencem com técnica. Algumas batalhas se vencem com o coração. Aparo machadadas com o escudo, me arrisco, confio na minha armadura, golpeio instintivamente. Os relâmpagos iluminam uma batalha selvagem. Derrubo quatro deles, mas estou exausto e abri demais a guarda no último ataque. Um golpe de clava me lança contra as pedras, e me deixa atordoado, quase indefeso. A criatura caminha em minha direção, pronta para desferir o ataque de misericórdia, quando um grito estridente se faz ouvir em meio aos trovões. Um braço magro agarra-se ao pescoço do troll, e uma adaga perfura seu olho esquerdo. A mulher havia me seguido e agora salvara minha vida. O monstro a golpeia com fúria, jogando-a longe. Essa atitude corajosa, heroica e suicida concedeu tempo o suficiente para que eu me recuperasse, então me levanto e destruo o mal, derrubando o último dos lacaios com uma espadada certeira que lhe separou a cabeça do pescoço.

— Por que me seguiste, mulher? Não disse para ficar em casa e aguardar?

— Em meu coração, Deus mandou que eu viesse te ajudar, nobre guerreiro. E mesmo que Ele não dissesse nada… é o meu filho que está lá, eu não podia ficar parada. Vá, cavaleiro, cumpra a sua promessa. Apresse-se, pois aquela criatura monstruosa me causou ferimentos graves e não quero morrer sem ver meu garoto pelo menos mais uma vez. Uma última vez.

Meu cavalo está muito ferido, mas sobreviverá. Tenho que seguir sozinho, então prontamente começo a escalar na direção da caverna. Estou com dificuldade para respirar, provavelmente o último impacto que recebi quebrou uma ou duas costelas. Nada demais. Nada que abale minha determinação. Uma trilha estreita e íngreme conduz até o meu objetivo e pouco tempo depois estou na entrada do covil maligno. A chuva finalmente dá trégua e um novo dia está quase amanhecendo. Pensei que o inimigo estaria escondido, preparando algum tipo de emboscada, mas me enganei – estava me esperando logo na porta e era mesmo uma bruxa, que me encarou e disse com voz cruel:

— Vá embora, cavaleiro. Você não encontrará nada aqui além da própria morte.

— Bruxa velha, bem sabes que tuas maldades terão fim antes do raiar desse dia. Porém sinto uma presença mais maligna que a tua aqui nesse covil que emana podridão, portanto revele quem é teu mestre e me entregue logo o menino sequestrado, agindo com dignidade pelo menos em teus últimos instantes.

Ouço a criança gritar por socorro no fundo da caverna e avanço em direção à bruxa, com a Sagrada Vingadora em punho. A velha pronuncia um feitiço macabro e me aponta o dedo. Um raio negro atinge meu peito e sinto como se minha alma estivesse sendo arrancada, como se a vida estivesse sendo sugada à força do meu corpo. Minhas entranhas parecem dilaceradas, o ar queima meus pulmões, cada movimento é pago com um universo de dor. Mas eu resisto, eu tenho que resistir, chego perto e desfiro um ataque brutal, que praticamente a divide em dois, lavando as pedras e maculando minhas vestes com sangue escuro e maldito. Sigo pela caverna, uma chama e uma presença diabólica me aguardam no final. Finalmente descobrirei quem é meu verdadeiro inimigo. Vejo a criança amarrada, com símbolos infernais desenhados pelo corpo, pronta para ser sacrificada. As chamas ganham forma, revelando um demônio ancestral. Sua maldade só se equipara a seu poder. E à sua malícia.

— Cavaleiro, nobre cavaleiro. O que viestes aqui fazer? Acaso sabeis quem é essa criança? Acaso sabeis quem sou eu, ou o que aqui está em jogo?

— Cala-te, demônio. E prepara-te para a batalha. Sabes que sou imune a vossas palavras ardilosas. Sabes que os paladinos possuem o dom divino de reconhecer toda e qualquer mentira, portanto não tente ganhar tempo, pois tua morte é certa.

— Ameaçais um dos lordes infernais, com tua débil espada e este corpo alquebrado? Comoveis-me com tal demonstração de coragem, mas infelizmente decepcionar-te-ei, pois hoje não posso lutar, o que vês aqui não é meu corpo físico. Sei que reconheceríeis qualquer mentira, portanto escutai-me com atenção e perceberás a verdade e a urgência em minhas palavras – ele diz, me encarando. – Estou em guerra com meu irmão, pelo domínio dos círculos infernais. O resultado de tal confronto afetará diretamente a esse mundo que tanto amas e proteges, pois, caso meu irmão vença, portais abrir-se-ão em todos os lugares e haverá aqui uma invasão demoníaca sem precedentes. Já meus planos estão mais voltados à guerra contra as hostes celestiais, portanto, se queres poupar os humanos da dor e do sofrimento, é de vosso interesse que eu logre êxito no embate.

— Falas a verdade, demônio, mas não entendo onde queres chegar. Qual a relação dessa inocente criança com tal guerra infernal?

— Essa criança possui um tipo de alma… especial. Sacrificando-a na manhã de seu nono aniversário, que é hoje, essa alma alimentará um artefato que me trará vantagem na guerra. Por isso, nobre paladino, fazei o que é certo: sacrificai a criança, agora!

— Estás louco? Crês mesmo que eu faria uma coisa dessas?

— Não sejas tu o hipócrita aqui! Bem sei que também desejais artefatos de guerra. Tentais convencer-te que é pela causa do bem, mas em teu íntimo sabeis que tudo se resume à busca pelo poder, assim como todos os outros homens. És imune às mentiras, mas acaso és imune às fraquezas humanas? Acaso deixaste de sentir luxúria quando a camponesa ofereceu-lhe o corpo? Não és acometido pela vaidade quando se autoproclama “a esperança dourada que surge com os primeiros raios de sol”? Ouça minha generosa oferta: um dos artefatos que buscais está em meu pescoço, é um amuleto. Outro é um anel que agora ornamenta a mão esquerda de meu irmão. Sacrificai a criança e ajudai-me com minha guerra. Assim que a vencer, dar-te-ei de bom grado os dois artefatos que ajudar-te-ão na sua. Sabeis que esse é o certo a ser feito, ou estás disposto a perpetuar indefinidamente o sofrimento de teu povo, por causa de um camponês que provavelmente morrerá antes dos trinta anos, sem fazer qualquer diferença no mundo? O tempo está esgotando, cavaleiro, deixeis de lado essa aura de homem santo e fazeis o que é mais sensato.

— Não sou santo, vil criatura. Sou apenas um homem que tenta fazer o seu melhor. Agora que falaste, percebo que a vaidade me acomete, mesmo que disfarçadamente. Por ironia, tuas palavras me trouxeram sabedoria. Senti sim luxúria com a oferta da camponesa, mas não cedi, não abusei do poder que possuía naquele momento. Assim como espero conseguir não abusar do poder que terei quando juntar os artefatos. Sou só um homem que tenta fazer o que é certo. E o certo agora é libertar esse garoto.

Corto as amarras e seguro a criança no colo. O demônio emite um silvo ensurdecedor. Ele agora é a personificação do ódio.

— Escutai-me bem, cavaleiro: só vereis novamente esse amuleto quando eu vier buscar pessoalmente a tua alma, depois de vencer meu irmão. Sereis torturado eternamente no mar de chamas, vendo cada assassinato, cada estupro, cada atrocidade que meus demônios cometerão neste mundo quando eu invadi-lo. E sabereis que todo sofrimento é por tua causa.

— Escutai-me tu, demônio. Enquanto tu e teu irmão duelarem, eu reunirei os outros artefatos que necessito. Diga a ele que, caso vença, fecharei pessoalmente cada portal que for aberto aqui e o destruirei pessoalmente. Caso sejas tu o vencedor, não te preocupes em vir me buscar, pois eu descerei de bom grado ao inferno em teu encalço e lhe arrancarei o amuleto do pescoço, junto com tua cabeça. Agora vá embora.

A fúria irradia em seu olhar, a chama brilha com intensidade e então desaparece. A caverna agora está iluminada pelos primeiros raios de sol. Sem demora, levo o menino até a mãe, que reúne seus últimos vestígios de vitalidade ao ver o garoto. Ela me olha com gratidão, dá um sorriso triste de despedida e chora, enquanto abraça o filho.

— Obrigada, bom cavaleiro. Obrigada.

— Apenas fiz o que precisava ser feito, senhora.

— Cumpriste tua promessa, o que hoje em dia já é muito. Porém, preciso abusar de tua nobreza e pedir-lhe que me prometa uma outra coisa.

— O que quiser, senhora.

— Sabe que estes são meus últimos instantes de vida. Cuide do menino depois. Por favor…

— Cuidarei como se fosse meu filho. Prometo.

A criança percebe o que vai acontecer, me olha assustada e começa a chorar, agarrando-se aos cabelos dourados e desgrenhados da mãe.

— Não, mamãe, não. Não quero que você morra. Não morra, não, por favor…

— Essa escolha não é minha, filho. Ouça… eu te amei mais do que tudo no mundo e você me fez feliz como jamais poderia imaginar um dia ser, mas agora eu preciso que você seja um homem forte e continue sem mim. Feliz aniversário, querido.

Ajoelho-me e repouso as mãos sobre o ombro do garoto. Em um último esforço antes do fim, a mulher coloca as mãos da criança sobre as minhas e diz:

— Agora deixo meu filho sob teus cuidados, cavaleiro. Morro feliz, pois sei que com você… ele estará nas mãos de Deus.

— Farei o melhor que puder, minha senhora.

Farei o melhor que puder.

____________________________

Deixe uma resposta