[Opinião] Sobre Meritocracia

meritocracia

Tenho utilizado a seguinte técnica para encontrar o famoso “bom senso” (aquele que todo mundo acha que tem) em debates sobre os mais variados assuntos:

Pegue discursos radicais opostos (sim, não importa o tema, pode ter certeza que os radicais estarão lá, nas trincheiras dos “dois lados”).

É quase certo que o “bom senso” (ou pelo menos algo que na minha interpretação pode ser encarado assim) estará em algum ponto próximo ao epicentro da colisão entre esses argumentos radicais. Às vezes mais à esquerda, às vezes mais à direita (com trocadilho :D), mas dificilmente fugirá disso.

O caso da meritocracia é um bom exemplo.

De um lado temos o discurso: “Todos têm chances, basta se esforçar”, que passa a impressão de que toda criança, mesmo aquelas nascidas nas lavouras de cana em condições de semi-escravidão, pode vir a se tornar um Bill Gates, bastando que para isso estude e não seja “preguiçosa”.

Do outro, um argumento que desdenha do anterior (coisas do tipo colocar legendas “ain… meritocracia, né?” para ilustrar notícias sobre preconceito, exclusão social, etc.) e não propõe nada, mas sugere que a ideia de que “basta se esforçar” é pura babela no mundo patriarcal-capitalista-opressor e que quem nasceu rico vai ficar cada vez mais rico e quem nasceu pobre vai ficar cada vez mais pobre, não importa o quanto de esforço seja empregado no processo.

Ok…

Eu diria que é uma completa insanidade afirmar que um andarilho de rua, como é o caso desse homem que ilustra a matéria, tem as MESMAS chances de “vencer na vida” (aqui é outro conceito bastante relativo) do que teve um Thor Batista (filho do Eike Batista, nada a ver com Asgard), por exemplo. Um nasceu em berço de ouro com tudo à mão, outro, infelizmente, nasceu em berço de outro material e teve que se desdobrar para sobreviver lutando contra todos os tipos de estigmas e preconceitos.

Pode ser que por um acaso muito grande do destino, o morador de rua se torne um milionário. E os defensores do primeiro argumento tendem a usar esses casos (que são amostras desprezíveis, completas exceções dentro de um universo quase infinito de insucessos) como prova concreta de que, sim, “Todos têm chances, basta se esforçar”.

Sim, isso é uma coisa.

Outra coisa, igualmente perigosa a meu ver, é repudiar completamente a ideia de meritocracia, debochar e tachar como opressor-coxinha-patriarcal quem a defenda mesmo que sem o radicalismo exacerbado de achar que todos possuem chances iguais e só dependem do próprio esforço para chegar onde quiserem.

Ora, meritocracia existe, sim. O caso abaixo, diferente do filme do Will Smith, é um exemplo concreto e tenho certeza que não é um caso tão isolado, tão impossível de se conseguir. Esse homem lutou contra as adversidades, se “esforçou muito” segundo as palavras do próprio e conseguiu melhorar sua condição de vida. Ele está rico, comendo lagosta e um monte de outras coisas gostosas e atropelando ciclistas nas rodovias sem ser preso? Não! Claro que não. Mas ele conseguiu melhorar. Por mérito.

Quando você debocha da meritocracia, você está ofendendo esse homem. E também todos os outros homens e mulheres que conseguiram melhorar de condição e deixar algo melhor para os filhos através do suor do próprio rosto.

Dizer isso (que a meritocracia existe) é negar, aceitar e/ou concordar com as desigualdades sociais? Claro que não! Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Torço, embora seja pessimista quanto a esse assunto, para que um dia o Brasil e a humanidade como um todo possa se encontrar numa situação em que não exista a menor possibilidade de haver uma disparidade tão grande como hoje há entre o tal do Thor Batista (peguei pra Cristo, mas há outros muito mais ricos) e o andarilho. Onde os destinos não sejam selados, ou ao menos extremamente encaminhados, antes do cordão umbilical ser cortado.

Mas o esforço próprio sempre haverá de ser importante. E, se não trouxer frutos sempre, como hoje desafortunadamente não traz (afinal, a vida não é uma ciência exata), tenho certeza que continuará sendo a melhor aposta para a vitória.

Seja qual for a proporção dessa vitória.

(Para ler a matéria que inspirou o post, clique aqui)

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